O delicado elo entre passado e futuro é o fio condutor dos seis textos de "A Pele em Flor", coletânea inédita de Vinícius Neves Mariano, lançada pela editora Alfaguara. Autor de "Velhos Demais para Morrer", finalista do Prêmio Jabuti, o autor conduz seus personagens por trajetórias das quais emergem com uma nova consciência, prontos para florescer em direção a um novo futuro.
No conto de abertura do volume, Vinícius — o narrador que se confunde com o escritor — testemunha no café de uma livraria uma funcionária negra ser humilhada porque errou o pedido. Perplexo, ele ouve o amigo Henrique, que também presencia a cena, explicar o ocorrido como sintoma de uma doença: o “mal do senhor”. Vinícius decide, então, investigar essa grave mazela que, assim como a narrativa do conto, entrelaça realidade e fabulação.
Em “Fawohodie”, uma releitura brilhante e provocativa do "Aleph" de Borges, Mariano questiona não só o que é digno do cânone literário, mas quem pode ocupar esse posto e quais temas são pertinentes na chamada “alta literatura”. As tradições e heranças culturais e simbólicas são a chave para os personagens de A pele em flor entenderem suas emoções e construírem seu lugar no mundo. Na busca pela própria individualidade, eles encontram ressonância no coletivo. Compre o livro "A Pele em Flor" neste link.
O motivo que inspirou o livro: um relato chocante
"Foi graças a uma xicarazinha de café adoçado que ouvi, pela primeira vez, sobre o 'mal do senhor' - o que é bem simbólico pensando agora, já que essa história tem raízes tanto nas plantações de cana-de-açúcar quanto nas de café. Eu estava no Rio de Janeiro na companhia do Henrique (Henrique Marques Samyn, escritor, crítico literário, professor da Uerj, entre tantas outras coisas) quando a cena aconteceu"...
"Conversávamos em uma mesa no segundo andar da Livraria da Travessa, em Ipanema. Eu ficaria pouco tempo na cidade, estava ali a trabalho, por isso pedi que nosso encontro se desse em algum lugar perto do escritório; a livraria fica do lado. Henrique estava eufórico: no fim de semana anterior, seu Botafogo havia vencido o Flamengo por três a dois no Carioca, depois de anos de freguesia. Acabou o tabu! Seria um ano fantástico no Brasileirão — palavras do Henrique —, e ele tentava me convencer dos benefícios das saf para os clubes de futebol quando o escarcéu nos assustou"...
"Três ou quatro mesas à nossa direita, uma senhora berrava com uma atendente. Meu susto foi tão grande que até hoje consigo me lembrar de muitos detalhes daqueles poucos segundos em que tudo aconteceu: a senhora tinha por volta de 70 anos, era branca, estava bastante maquiada e tinha os cabelos pintados de um loiro muito amarelo. Usava um bom número de pulseiras e anéis — e me lembro dessa particularidade porque, depois da primeira leva de gritos, deu um tapa na mesa e o barulho se confundiu: o chacoalhar das pulseiras, o tilintar dos anéis no tampo de pedra e o ruído agudo da xícara de louça tombando"...
"Meus ombros deviam estar arqueados e minha cabeça encolhida entre eles, assim como os do Henrique, que também se contraiu no instante em que a xícara virou. O café escorreu pelo tampo e a atendente tentou conter o líquido com um paninho que tirou do bolso da frente do avental. Era uma menina negra, de pele retinta, que não devia ter mais de 20 anos; usava o uniforme do estabelecimento e tinha os cabelos presos. Me compadeci"...
"Àquela altura, não havia mais ninguém que não estivesse se contorcendo para tentar entender o que acontecia ali. Exaltada, a senhora se levantou e começou a juntar seus pertences: óculos, celular, bolsa. Teve o cuidado de arrumar qualquer fio de cabelo amarelo que pudesse ter saído do lugar durante o ataque. Estava constrangida, mas com a convicção inabalada. Era o seu direito, parecia pensar, não podia deixar barato"...
"A centímetros dela, ainda mais constrangida, ainda mais assustada que todos nós, a atendente se curvou para limpar a bagunça causada pelo tapa. Era fácil perceber como estava chocada: os gestos pareciam frágeis e inseguros, sua voz soou trêmula, e só foi possível ouvi-la porque estávamos em silêncio absoluto. Pediu desculpas pelo erro e tentou se justificar alegando um engano na cozinha. Mas aquilo só resultou em outra erupção de gritos"....
"Foi no segundo berreiro que conseguimos entender o que se passara: a senhora havia pedido um cappuccino, que é servido sem açúcar, e a atendente trouxe um mocaccino, que já vem adoçado porque leva chocolate. A jovem não negava o erro e pedia que a cliente compreendesse. Por sua vez, a senhora, que não era diabética, alegava que, se fosse, poderia ter morrido - palavras dela. O tumulto não durou mais que um minuto. Talvez até metade disso"...
"É o estado de alerta que insiste em acumular detalhes e acaba dando à cena uma duração mais longa do que teve na realidade. A gerente agiu rápido: se aproximou com gestos exagerados de subserviência (cabeça baixa, ombros encolhidos, tom de voz suave) e conseguiu conduzir a senhora até as escadas; solícita, ofereceu a mão como apoio para ajudá-la a descer. A idosa pareceu se acalmar com a complacência habilidosa, ainda que uma indignação incrédula arrebatasse suas expressões e seus gestos"...
"Apoiada na mão da gerente — convém registrar que também era branca —, desceu as escadas e em poucos segundos já não era mais possível vê-la. Mas podíamos ouvi-la: antes que a distância cuidasse de desaparecer com sua voz, ainda escutamos uma firme recomendação de que demitissem a funcionária. Um dia ela vai acabar matando alguém, garantiu. Então não a ouvimos mais"...
"A atendente tentava recolher a xícara e o pires que causaram tamanho alvoroço, mas, como tremia, deixou a xícara tombar mais uma vez. O casal da mesa ao lado tentou ajudá-la: o homem ajeitou a xícara no pires e usou um guardanapo para limpar os últimos respingos de café na mesa; a mulher pousou a mão no ombro da menina, oferecendo algum consolo. Então a atendente agradeceu com um menear mínimo de cabeça, recolheu o que faltava e sumiu pela porta da cozinha"...
"O ruído sincronizado dos pés das cadeiras arranhando o piso indicou que, assim como eu, os demais fregueses retornaram a suas posições iniciais. Qualquer clima ruim que pudesse ter pairado sobre o ambiente se dispersou em poucos instantes, e logo o burburinho das conversas voltou ao normal. Comentei com Henrique sobre o absurdo de tudo aquilo por conta de um motivo tão esdrúxulo; bastava pedir para trocar o café. Notei que ele estava disperso, percorrendo o olhar pelo trajeto entre a escada e a cozinha. Talvez tentasse perceber — e intervir, caso necessário — se a sugestão da idosa seria acatada. Desatento, respondeu apenas: 'É o mal do senhor. Não precisa de muito'."
O que disseram sobre o livro
“As narrativas de Vinícius Neves Mariano são assombradas pelo passado. Os textos de A pele em flor são povoados por pessoas que procuram seu lugar no mundo, compartilhando um denominador comum: a cor da pele. Aí está o que as configura racialmente, determinando quais espaços (restritos) podem ocupar e quais caminhos (estreitos) podem percorrer na labiríntica sociedade brasileira. Na esteira da tradição literária negra, Vinícius demonstra que cada um desses personagens representa uma singularidade: que, para além dos estereótipos impostos pelos discursos hegemônicos, nenhuma vida negra é redutível à insignificância dos lugares-comuns. Desse modo, imersos em seus negros dramas, os personagens de A pele em flor buscam recuperar não apenas seus sentidos próprios; mas, em última instância, a humanidade que nos foi usurpada.” — Henrique Marques Samyn, poeta, escritor, professor e doutor especializado em literatura negra.
Sobre o autor
Vinícius Neves Mariano nasceu em Alfenas, no sul de Minas Gerais. É autor de "Empate" (2015) e "Velhos Demais para Morrer" (2020), romance vencedor do Prêmio Malê de Literatura e finalista do prêmio Jabuti. É roteirista e produtor audiovisual. Seu terceiro livro, "A Pele em Flor", é a primeira obra que publica pela Alfaguara. Garanta o seu exemplar de "A Pele em Flor" neste link.
Serviço
Livro "A Pele em Flor"
Autor: Vinícius Neves Mariano
Número de páginas: 136
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