quinta-feira, 2 de julho de 2026

.: Julianne Trevisol volta ao teatro em comédia sobre relações afetivas


Comédia francesa "Uma Semana, Nada Mais" estreia nova temporada no Teatro Nair Bello com Julianne Trevisol, Leandro Luna e Beto Schultz. Versão brasileira tem direção de João Fonseca e desnuda as contradições das relações afetivas contemporâneas. Foto: Caio Gallucci

Após vencer o "MasterChef Celebridades", a atriz Julianne Trevisol retorna aos palcos na comédia francesa "Uma Semana, Nada Mais", espetáculo que aborda inseguranças, conflitos e as dificuldades de comunicação nos relacionamentos amorosos contemporâneos. A atriz divide a cena com Leandro Luna e Beto Schultz na versão brasileira do texto do francês Clément Michel, fenômeno de público na América Latina, com mais de 400 mil espectadores em países como Argentina, Uruguai e Chile. A direção é de João Fonseca e a adaptação de Priscilla Squeff. Sucesso de público na América Latina, o espetáculo estreia nova temporada no Teatro Nair Bello, em São Paulo, no dia 24 de julho, onde permanece em cartaz até 16 de agosto. As sessões acontecem as sextas e sábados, às 20h00, e domingos, às 18h00.

Na trama, Pablo (Leandro Luna) pede ao seu melhor amigo Martín (Beto Schultz) que vá morar com ele e sua namorada Sofía (Julianne Trevisol). O objetivo é claro: desestabilizar a relação para provocar o fim do namoro. O plano se estende por uma semana - tempo suficiente para expor fragilidades, egoísmos e contradições dos três personagens. A convivência forçada serve de pano de fundo para discutir os limites dos relacionamentos afetivos contemporâneos, por meio do humor. A encenação aposta no riso como meio de provocar reflexão sobre o modo como construímos - e desmontamos - nossas relações interpessoais.

Para João Fonseca, que assina a direção, o interesse pela peça veio do modo como a trama se desdobra. “A forma surpreendente e divertida de como vai se desenrolando a história foi o que mais me atraiu”, comenta. Ele destaca ainda a importância do equilíbrio entre comicidade e desconforto. “Trabalhamos o ritmo cômico aproveitando ao máximo as situações propostas, para que o humor surja naturalmente, sem exageros.”

Responsável pela tradução e adaptação do texto, Priscilla Squeff destaca que a versão brasileira partiu da montagem argentina, o que aproximou o ritmo da comédia do nosso repertório cultural. “Tive que localizar algumas referências, atualizando situações para que ressoassem com o público brasileiro sem perder o espírito original da peça. O maior desafio é ajustar o tempo cômico: os contrapontos verbais precisavam funcionar no nosso ritmo”.

Nesse processo, o ponto de partida foi confiar nos personagens. “Eles são humanos, falhos, exagerados e, justamente por isso, engraçados. A ideia é preservar o humor, mas sem se descuidar da camada crítica: a dificuldade de comunicação nos relacionamentos, o medo do confronto, os jogos de poder afetivo. Acredito que o público vai rir de si mesmo, do amigo, do ex, daquele momento constrangedor que todos já viveram ou ouviram falar”.

Para o ator Leandro Luna, o espetáculo levanta questões sobre padrões afetivos e relações sociais. “Todos nós nos encaixamos em um tipo de padrão de relacionamento. A peça apresenta de forma explicita, caraterísticas que se enquadram nesses padrões e nos fazem refletir sobre como estamos nos relacionando nos dias de hoje, em como reagimos ao lidar com os nossos medos e inseguranças, e o quanto conseguimos ser verdadeiros nas nossas relações”.

Já Beto Schultz destaca a importância da confiança. “A reflexão que fica é que a verdade se prova, mais uma vez, peça essencial para qualquer relação, seja ela de amizade, profissional ou amorosa. Muitas vezes tomamos importantes decisões sem pensar e refletir o que pode causar problemas difíceis de resolver”.

João Fonseca também reflete sobre a conexão entre o texto original e o público brasileiro: “A peça traz questões universais a respeito das relações amorosas, de fácil identificação em qualquer lugar do mundo, e por isso seu sucesso. Acredito que o talento e o timing de comédia dos atores brasileiros vai potencializar ainda mais essa comédia”.


Serviço
Espetáculo "Uma Semana, Nada Mais"
De 24 de julho a 16 de agosto - Sessões: Sextas e Sábados às 20h00, e domingos às 18h00.
Sessão com acessibilidade em Libras: 9 de agosto, domingo às 18h00.
Classificação etária: 14 anos
Duração: 75 minutos
Ingressos: R$ 100,00 (inteira) / R$ 50,00 (meia-entrada)
Teatro Nair Bello – Shopping Frei Caneca
R. Frei Caneca, 569 - 401A - Consolação / São Paulo

.: Letterboxd dos musicais, Musical Cast Database preserva a memória do gênero


À frente do podcast Musical Cast há 11 anos, Rafael Nogueira criou uma plataforma que promete mudar a maneira como as pessoas assistem aos musicais brasileiros. Foto: divulgação

Nova plataforma gratuita reúne fichas técnicas e avaliações de musicais nacionais em um só lugar - e nasce como desdobramento do podcast "Musical Cast", no ar desde 2015. No dia 1º de julho de 2026, vai ao ar o MCDb - Musical Cast Database, a primeira plataforma dedicada a catalogar e avaliar musicais brasileiros, idealizada por Rafael Nogueira, o mesmo criador do podcast Musical Cast.

A proposta é simples e ambiciosa ao mesmo tempo: reunir em um só endereço a memória de um gênero que movimenta plateias há décadas, mas cujo registro ainda vive espalhado - quando não se perde de vez. As informações são pesquisadas em programas físicos e digitais, matérias de jornais e revistas, sites especializados em musicais e, às vezes, até na lembrança de quem estava lá, já que muitos desses registros não são mais encontrados.

O MCDb é um desdobramento natural do Musical Cast, podcast dedicado ao teatro musical brasileiro no ar desde 2015. Depois de anos conversando sobre o gênero, a iniciativa agora oferece à comunidade uma ferramenta para registrar e celebrar essas produções de forma permanente e organizada.


Por que documentar o teatro musical brasileiro
O teatro musical brasileiro tem uma história rica, mas frágil. Diferente do cinema, que fica registrado em película, ou da literatura, que sobrevive no livro, o musical é uma arte do instante: existe enquanto está em cartaz e depois se dissolve. Montagens estreiam, cumprem temporada, colecionam plateias emocionadas e saem de cartaz sem que fichas técnicas, elencos, produções e teatros fiquem organizados em qualquer lugar de acesso público.

Quando alguém quer saber quem dirigiu determinado espetáculo, quem assinou a versão brasileira de uma canção ou em que teatro uma montagem estreou, quase sempre esbarra no mesmo problema: a informação não está em lugar nenhum. Ela se dispersa em programas de papel guardados numa gaveta, em posts que somem no feed poucos dias depois e, principalmente, na memória de quem esteve lá. E memória, por mais generosa que seja, se apaga. A cada produção que encerra, a cada artista que segue outro caminho, a cada arquivo pessoal que se perde, um pedaço dessa história corre o risco de desaparecer para sempre.

O MCDb existe para enfrentar essa lacuna. A proposta é simples e ambiciosa ao mesmo tempo: transformar cada montagem em uma página consultável, reunindo elenco, direção, direção musical, produção, versionistas, teatros e ano num só lugar. Ao fazer isso de forma sistemática, a plataforma deixa de ser um acervo solto e passa a ser uma referência central e navegável, capaz de conectar pessoas, produções e trajetórias ao longo do tempo.

Esse trabalho serve a muita gente. Ao público, que ganha um caminho confiável para redescobrir espetáculos e acompanhar os artistas que admira. À imprensa, que passa a ter uma fonte organizada para checar créditos e construir pautas. Aos pesquisadores, que encontram matéria-prima para estudar a evolução do gênero no país. E à própria classe artística, que vê seu trabalho reconhecido e preservado, e não diluído no esquecimento. 


O que a plataforma oferece
Inspirado na lógica de comunidades como o Letterboxd, o MCDb combina arquivo e
experiência social:
● Catálogo de musicais com fichas técnicas completas e busca por título, elenco,
direção, produção e mais.
● Avaliações: o público dá notas de meia a cinco estrelas para cada produção.
● Listas pessoais "Já vi" e "Quero ver", além de um Top 5 para cada usuário
destacar suas montagens favoritas.
● Páginas de artistas e de teatros, que reúnem toda a trajetória de uma pessoa ou
de uma casa dentro do catálogo.
● Ranking dos musicais mais bem avaliados pela comunidade.
● Perfis públicos e feed de atividade, para acompanhar o que outras pessoas estão
vendo e avaliando.
● Compartilhamento de avaliações direto para os Stories do Instagram.
● Contribuição aberta: qualquer pessoa pode sugerir musicais que ainda não estão
no acervo, ajudando o arquivo a crescer.
O acesso é gratuito, e o cadastro (via conta Google) libera avaliações, listas e comentários.


Sobre o Musical Cast
O Musical Cast, criado por Rafael Nogueira, acompanha e comenta o teatro musical brasileiro desde 2015. São 11 anos dedicados a falar sobre musicais nacionais, da Broadway e do West End, unindo análises profundas a uma conversa sempre leve e descontraída.

Reconhecido como o primeiro podcast brasileiro dedicado ao teatro musical, o Musical Cast já ultrapassou a marca de 270 episódios. Ao longo dessa trajetória, se firmou como um espaço onde o público encontra desde a repercussão das grandes estreias até a redescoberta de montagens que marcaram época, sempre com olhar atento aos bastidores, aos elencos e às escolhas artísticas que dão vida a cada espetáculo.

Além de noticiar, o programa se propõe a comentar e contextualizar. Os episódios passeiam por estreias, temporadas, curiosidades e trajetórias de artistas, aproximando quem faz musical de quem ama assistir. Essa combinação de profundidade e leveza é a marca do Musical Cast: um convite para pensar o gênero com seriedade, mas sem perder o prazer e a paixão que movem quem vive o teatro musical. Em mais de uma década no ar, o Musical Cast se consolidou como uma referência para fãs, artistas e profissionais do meio, ajudando a registrar e a celebrar a produção musical brasileira e a manter viva a memória dos musicais brasileiros.

.: Espetáculo "As Bondosas" estreia em São Paulo após temporadas de sucesso


No palco, dirigidos por Tom Pires, Gerson Lobo, Leandro Mariz e Sidcley Batista interpretam três mulheres, representando arquétipos femininos, numa encenação contemporânea que privilegia o humor. 
Foto: Janderson Pires 

Espetáculo teatral de artistas pernambucanos residentes em São Paulo e no Rio de Janeiro, “As Bondosas” estreia em São Paulo nesta sexta-feira, dia 3 de julho, no Galpão do Folias. Após temporadas de sucesso no Rio e apresentações em festivais pelo país, com mais de 12 mil espectadores, a montagem premiada conquistou seu espaço como uma das criações mais originais do teatro cômico. A comédia dramática do autor maranhense Ueliton Rocon traz à cena o encontro de três carpideiras - mulheres pagas para chorar em velórios -, Astúcia, Angústia e Prudência, já cansadas do penoso ofício de velar mortos. 

Elas recebem a missão de velar o corpo da filha mais jovem de uma tradicional família aristocrática, falecida em circunstâncias misteriosas. O que deveria ser um velório solene rapidamente se transforma em uma sequência de situações inusitadas e hilárias. À medida que observam o comportamento nada convencional dos membros da família - incluindo a própria falecida - as três figuras se veem envolvidas em uma trama repleta de segredos, revelações surpreendentes. 

Entre confissões inesperadas e acontecimentos cada vez mais absurdos, as carpideiras acabam expondo suas próprias verdades. "As Bondosas" é uma sátira afiada sobre a busca pela verdade, os costumes sociais e as contradições do comportamento humano, conduzida por personagens inesquecíveis de estética irreverente e intrinsecamente humorada da cultura nordestina. Três homens interpretam três mulheres, representando arquétipos femininos, numa encenação contemporânea que privilegia o humor pela natural comicidade do texto referenciado no interior do Nordeste. 

O palco é ocupado apenas por cinco caixotes que se transformam em vários signos contextualizados. “A direção do Tom Pires, tanto na condução dos atores quanto na encenação, valoriza a riqueza de diálogos que o autor imprime pela situação dramática vivida pelas personagens, evidenciando a semiologia da narrativa”, acrescenta o ator Gerson Lobo. 

Um olhar crítico sobre os costumes, satirizando o fingimento das relações humanas através das choradeiras no ato de suas ocupações. Entre confissões inesperadas e acontecimentos cada vez mais absurdos, as carpideiras acabam expondo suas próprias verdades, levando o público a rir da hipocrisia humana e das máscaras que insistem em usar. A peça completa treze anos de existência, executada pela Cia. S.O.S. de Teatro Investigativo e, em São Paulo, realizada pela Capela Alquímica Produções. 


Ficha técnica
Espetáculo "As Bondosas"
Texto original: Ueliton Rocon
Direção e pesquisa musical: Tom Pires
Elenco: Gerson Lobo, Leandro Mariz e Sidcley Batista.
Figurino: Leandro Mariz
Cenário: Sidclei Batista
Iluminação: Eduardo Salino
Produção executiva: Gerson Lobo.
Direção de produção: Cia SOS de Teatro Investigativo RJ
Assessoria de imprensa: Adriana Monteiro
Realização: Capela Alquímica Produções


Serviço
Espetáculo "As Bondosas"
Galpão do Folias | Rua Ana Cintra, 213 - Campos Elíseos / São Paulo
Estacionamento - Rua Ana Cintra, 223 ou Rua Ana Cintra, 183.
Telefone: (11) 33612223 / (11) 33332837
A bilheteria abre duas horas antes do espetáculo.
De 3 de julho até 2 de agosto de 2026
Sextas-feiras, às 20h00, sábados, às 18h00 e 20h00, e domingos, às 18h00.
Duração: 60 minutos
Valor - R$ 80,00 (inteira) / R$ 40,00 (meia-entrada)
Classificação indicativa – 14 anos.
Acesso para pessoas com deficiência (PCD)
Ao lado do metrô Santa Cecília.

.: “A Vingança de Uma Mulher” conduz jogo psicológico de desejo e crueldade



Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

“A Vingança de Uma Mulher” (“La Vengeance d'une femme”), dirigido por Jacques Doillon, está em cartaz na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte. Lançado em 1990 e exibido na seleção oficial do 40º Festival Internacional de Cinema de Berlim, o longa-metragem parte de uma premissa simples e incômoda: uma viúva decide confrontar a amante do marido morto e, nesse encontro, reorganizar sua dor como método. Cécile, vivida por Isabelle Huppert, procura Suzy, interpretada por Béatrice Dalle, em Paris após o suicídio do marido. Convencida de que a amante tem responsabilidade na morte, ela constrói um jogo de aproximação e pressão emocional, em que cada palavra parece calculada para desestabilizar. O filme acompanha esse movimento com rigor, apostando em diálogos longos, olhares que se sustentam além do conforto e uma encenação que privilegia a presença física das atrizes.

O roteiro, assinado por Doillon em parceria com Jean-François Goyet, dialoga com a literatura de Fiódor Dostoiévski, especialmente “O Eterno Marido”, obra que investiga ciúme, ressentimento e obsessão. Essa base literária se traduz em uma narrativa concentrada, quase teatral, em que o conflito se desenrola pelo atrito constante entre as personagens. Isabelle Huppert conduz o filme com precisão e controle, explorando as ambiguidades de uma mulher que alterna acolhimento e agressividade com naturalidade inquietante. Béatrice Dalle responde com uma presença mais instintiva, criando um contraste que sustenta a tensão ao longo das mais de duas horas de duração. O restante do elenco - que inclui Jean-Louis Murat, Laurence Côte e Sebastian Roché - orbita esse confronto central, reforçando a atmosfera de instabilidade.

Outro dado que chama atenção é a forma como Doillon organiza o espaço cênico. Há uma economia de cenários e uma concentração nos corpos e nas vozes, o que aproxima o filme de uma experiência teatral filmada, sem abrir mão de uma mise-en-scène rigorosa. Críticos da época destacaram justamente esse caráter metódico da encenação, em que a vingança se constrói passo a passo, como se cada gesto obedecesse a um plano previamente traçado. Com 133 minutos de duração, “A Vingança de uma Mulher” exige do espectador disposição para acompanhar um ritmo deliberadamente controlado. A recompensa está na densidade das interpretações e na forma como o filme transforma um encontro em campo de guerra. Décadas depois, a obra permanece como um estudo incisivo sobre desejo, culpa e as formas silenciosas de violência que atravessam as relações íntimas.


Ficha técnica
“A Vingança de uma Mulher” | “La Vengeance d'une femme” (título original)
Gênero: drama. Duração: 133 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 1990. Idioma: francês. Direção: Jacques Doillon. Roteiro: Jacques Doillon e Jean-François Goyet, com base em “O Eterno Marido”, de Fiódor Dostoiévski. Elenco: Isabelle Huppert, Béatrice Dalle, Jean-Louis Murat, Laurence Côte, Sebastian Roché, David Léotard, Albert Le Prince, Brigitte Marvine, Pierre Amzallag, Jean-Pierre Bamberger. Distribuição no Brasil: não especificada. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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.: "4x100: Correndo por Um Sonho" revisita derrota e busca redenção


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Aposta rara do audiovisual brasileiro, o drama esportivo “4x100: Correndo por Um Sonho” chega à plataforma de streaming Reserva Imovision. Dirigido por Tomas Portella, conhecido por transitar entre o cinema comercial e projetos de maior ambição estética, o longa-metragem parte de uma derrota marcante nas Olimpíadas do Rio 2016 para construir uma narrativa sobre rivalidade, culpa e reconstrução coletiva.

A trama acompanha Maria Lúcia (Fernanda de Freitas), atleta que carrega o peso de um erro decisivo na final do revezamento 4x100, e Adriana (Thalita Carauta), que, após o fracasso, abandona as pistas e tenta sobreviver no circuito de lutas de MMA. Anos depois, às vésperas dos Jogos de Tóquio, elas se veem obrigadas a dividir novamente a mesma equipe, dessa vez ao lado de outras corredoras que também lidam com suas próprias frustrações e expectativas.

O roteiro, assinado por um grupo que inclui Carlos Cortez, Caroline Fioratti, Juliana Soares, L.G. Bayão, Mauro Lima e o próprio Portella, costura diferentes conflitos pessoais sem perder de vista o eixo central: o trabalho em equipe como condição para qualquer vitória. O filme aposta em personagens com trajetórias distintas, evitando uma visão homogênea das atletas e abrindo espaço para discussões sobre machismo no esporte, desigualdade de investimento e a forma como a mídia constrói e destrói narrativas de sucesso.

Nos bastidores, a produção reúne nomes ligados à Gullane Filmes, com coprodução da Globo Filmes e Telecine. A ideia original partiu da atriz Roberta Alonso, que também integra o elenco, evidenciando um envolvimento criativo que ultrapassa a atuação. Parte das sequências de competição foi rodada entre São Paulo e Rio de Janeiro, enquanto a etapa final teve cenas captadas em Tóquio, em uma breve janela de gravações que buscou aproximar a ficção do ambiente olímpico.

Um dos episódios mais comentados da produção envolve Thalita Carauta, que relatou ter sofrido lesões durante as filmagens das cenas de corrida, exigindo adaptações e uso de efeitos visuais. O compromisso físico do elenco contribui para a sensação de esforço real que o filme tenta transmitir, especialmente nas sequências de treino e competição. Lançado em 2021, após adiamentos causados pela pandemia de Covid-19, o longa dialoga com um momento em que o esporte voltou ao centro do debate público, impulsionado pela realização das Olimpíadas de Tóquio. A coincidência de calendário reforçou o interesse pela obra, que funciona também como vitrine para histórias pouco exploradas no cinema nacional.


Ficha técnica

“4x100: Correndo por Um Sonho”
Gênero: drama esportivo. Duração: 109 minutos. Classificação indicativa: 10 anos. Ano de produção: 2021. Idioma: português. Direção: Tomas Portella. Roteiro: Carlos Cortez, Caroline Fioratti, Juliana Soares, L.G. Bayão, Mauro Lima e Tomas Portella. Elenco: Thalita Carauta, Fernanda de Freitas, Priscila Steinman, Cintia Rosa, Roberta Alonso, Augusto Madeira, Zezé Motta. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: Espetáculo "Adulto” percorre o Brasil e coloca relações à prova no palco


Com Fran Ferraretto, que assina a dramaturgia, Iuri Saraiva, Sidney Santiago Kuanza e Jennifer Souza, montagem dirigida por Lavínia Pannunzio investiga amor, traição e saúde mental a partir de relações em colapso. Foto: Julieta Bacchin

Considerado um dos destaques do semestre na cena teatral paulistana e indicado aos principais prêmios de teatro, o espetáculo "Adulto" estreou no final do ano passado e integrou a mostra “2025 Em Cena”, organizada pela Prefeitura de São Paulo. Com expressiva recepção de público e crítica, o projeto dá início à turnê nacional, e será apresentado no Sesc Piracicaba, no próximo dia 30, às 20h00, e Sesc Santos, dia 31, às 20h00. Depois, passará por Sorocaba, São Bernardo do Campo e retornará à capital paulista, em apresentações previstas para setembro.

Com texto de Fran Ferraretto, indicada ao Prêmio APCA, "Adulto" apresenta um drama contemporâneo que confronta relações, segredos e idealizações sobre o amor. A encenação, assinada por Lavínia Pannunzio, acompanha dois casais de amigos que, diante da revelação de um segredo, veem emergir conflitos silenciados por anos. A peça propõe uma reflexão sobre as múltiplas formas de viver os vínculos afetivos, explorando experiências e valores que atravessam os relacionamentos.

Temas como traição, saúde mental, monogamia, machismo, maternidade e dinheiro atravessam a narrativa, estruturada em duas camadas: a ficção em processo de escrita por uma das personagens e a crise conjugal de João e Sara, que se intensifica com a chegada dos amigos Vitor e Paula, cujas visões provocam deslocamentos e tensões sobre os afetos na vida adulta.


Serviço
Turnê do espetáculo "Adulto"
Sesc Piracicaba: 30 de julho, às 20h00
Sesc Santos: 31 de julho, às 20h00

Ficha técnica:
Texto e idealização: Fran Ferraretto
Direção: Lavínia Pannunzio
Elenco: Fran Ferraretto, Iuri Saraiva, Sidney Santiago Kuanza e Jennifer Souza
Desenho de luz: Gabriele Souza
Trilha sonora e operação de som: Rafael Thomazini
Cenário: Mira Andrade
Figurino: Anne Cerutti
Design gráfico: Murilo Thaveira
Fotos: Julieta Bacchin
Visagismo: Louise Helène
Operação de luz: Carol Dourado
Técnico de montagem: Diego França
Assessoria de imprensa: Canal Aberto – Márcia Marques, Daniele Valério e Carina Bordalo
Estratégia digital e social media: Fernanda Pilotto
Direção de produção: Paula Malfatti
Coordenação de produção: FATTO Realizações
Gestão administrativa: Mava Produções
Assessoria jurídica: José Otávio V. de S. Ferreira S.I. Advocacia
Apoio: Oficina de Atores Nilton Travesso e Salão Pier A.

terça-feira, 30 de junho de 2026

.: Crítica: “Caso 137” mira na alienação com vídeos de gatinhos contra crimes

"Caso 137" pode ser assistido no site e aplicativo Reserva IMOVISION

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em junho de 2026


Vídeos de gatinhos em sequência ou encarar problemas dentro da própria corporação. Eis o contraponto da protagonista do drama “Caso 137”: Stéphanie Bertrand interpretada pela versátil Léa Drucker. Com direção de Dominik Moll, alemão radicado na França, o longa que soma 1 hora e 56 minutos de duração apresenta um jogo de gato e rato em que quem tem culpa encontra uma rede de apoio para esconder os abusos cometidos, enquanto que quem tenta dar um basta nos erros de conduta, acaba a ponto de até perder o emprego.

Flertando com o true crime, o thriller investigativo ficcional inspirado em fatos reais “Caso 137” é o palco da agente da corregedoria francesa, Stéphanie que apenas tenta ser justa nas análises de cada situação delicada. Assim, ela acaba como responsável pela investigação interna do complexo caso de violência contra o jovem de uma cidade distante, Guillaume Girard (Côme Peronnet), que acaba gravemente ferido pela polícia em Paris durante um protesto caótico dos Coletes Amarelos (movimento de protesto de origem espontânea, que começou com manifestações na França em outubro de 2018 e, posteriormente, se espalhou para outros países). 

Disponível na plataforma de streaming Reserva Imovision, o roteiro, assinado por Moll em parceria com Gilles Marchand de “Caso 137”, une um evento fictício por meio de situações reais amplamente documentadas pela imprensa europeia, que resultaram em casos de manifestantes atingidos por balas de borracha, prática questionada por organismos de direitos humanos.

Na mescla de ficção a realidade, a produção pauta a trama no faro de apuração técnica, uma vez que o estrago feito na vida do jovem que participava de seu primeiro protesto é irreversível. Ao analisar discursos e unir provas contra os colegas de profissão, Stéphanie passa a viver num dilema mais profundo ao contornar o drama pessoal, incluindo o ex-marido (com uma nova namorada provocativa), o filho e a mãe. 

Em meio aos aparentemente infinitos e convidativos vídeos de gatinhos nas redes sociais, Stéphanie enfrenta o processo burocrático e psicológico da investigação, tendo a tensão do suspense com a sobriedade do drama social. O longa com estreia mundial no Festival de Cannes de 2025, que disputou a Palma de Ouro e levou o César de Melhor Atriz com Léa Drucker é imperdível!



Filme: "Caso 137" (Dossier 137). Gênero: policial, drama. Duração: 1h56min. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: francês. Direção: Dominik Moll. Roteiro: Dominik Moll e Gilles Marchand. Elenco: Léa Drucker, Jonathan Turnbull, Mathilde Roehrich, Guslagie Malanda, Stanislas Merhar. Distribuição no Brasil: Autoral Filmes. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.

Trailer de "Caso 137"

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segunda-feira, 29 de junho de 2026

.: “O Balão Vermelho” flutua sobre Paris e redefine olhar sobre a infância


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Um menino, um balão e uma cidade inteira ao redor. Assim é o média-metragem francês “O Balão Vermelho”, dirigido e roteirizado por Albert Lamorisse, que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte. Filmado em 1956, o filme acompanha um menino solitário que encontra, nas ruas de Paris, um balão vermelho aparentemente comum, mas dotado de vontade própria. A partir desse encontro, a rotina ganha outra configuração, entre brincadeiras, perseguições e pequenas violências cotidianas.

Interpretado por Pascal Lamorisse, filho do diretor, o protagonista sustenta a narrativa com uma presença quase muda, guiada por gestos, olhares e deslocamentos pela cidade. Sabine Lamorisse e Georges Sellier completam o elenco principal, inserindo o menino em um mundo adulto pouco acolhedor, marcado por regras, repressões e uma certa indiferença. A escolha de filmar em locações reais, especialmente no bairro de Ménilmontant, reforça o contraste entre a Paris turística e a Paris vivida, com escadarias, cortiços e ruas estreitas.

Com 34 minutos, o filme alcançou um feito improvável: venceu o Oscar de Melhor Roteiro Original em 1957, tornando-se até hoje o único curta ou média-metragem a conquistar a estatueta fora das categorias específicas de duração. Também levou a Palma de Ouro de curta-metragem no Festival de Cannes. As conquistas chamam atenção porque o roteiro praticamente abdica de diálogos e aposta na força das imagens e na relação visual entre o garoto e o balão.

A fotografia de Edmond Séchan explora o contraste entre o cinza urbano e o vermelho vibrante que aparece na tela. O balão assume presença, reage, insiste, escapa e retorna. A dinâmica entre os dois personagens, um de carne e osso e outro de ar, constrói uma espécie de amizade improvável, que oscila entre cumplicidade e ameaça constante. Há também um dado curioso que atravessa gerações: muito antes de animações contemporâneas atribuirem personalidade a objetos, Lamorisse já transformava um balão em personagem pleno, capaz de provocar empatia sem uma única fala. O efeito especial, simples para os padrões atuais, ainda surpreende pela precisão e pelo encanto.

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Ficha técnica
“O Balão Vermelho” | “Le Ballon Rouge” (título original)
Gênero: comédia, fantasia. Duração: 34 minutos. Classificação indicativa: livre. Ano de produção: 1956. Idioma: francês. Direção e roteiro: Albert Lamorisse. Elenco: Pascal Lamorisse, Sabine Lamorisse, Georges Sellier, Vladimir Popov, Paul Perey, Renée Marion, Michel Pezin. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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domingo, 28 de junho de 2026

.: “O Rei Pasmado e a Rainha Nua” transforma desejo em crise de Estado


Imagine a corte espanhola do século XVII entrando em estado de choque simplesmente porque o rei teve um desejo considerado escandaloso: ver a própria esposa nua. É a partir dessa premissa deliciosamente absurda que "O Rei Pasmado e a Rainha Nua" (1991), em cartaz na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, dirigido por Imanol Uribe, constrói uma das sátiras mais divertidas e inteligentes do cinema espanhol dos anos 90. 

Depois de passar uma noite com uma prostituta, o jovem rei percebe que nunca viu o corpo da rainha — e decide corrigir isso imediatamente. O problema é que um pedido tão simples acaba provocando um verdadeiro terremoto moral dentro da corte. Padres, nobres, conselheiros e autoridades religiosas começam a discutir a situação como se o destino do reino dependesse daquilo. E é justamente aí que o filme fica ótimo. Quanto mais séria a reação das figuras de poder, mais engraçada se torna a situação. O roteiro transforma o espanto do rei diante da nudez em uma grande ironia sobre repressão, hipocrisia religiosa e controle dos desejos. Tudo isso sem perder o tom leve e bem-humorado.

Baseado no romance "Crónica del Rey Pasmado", de Gonzalo Torrente Ballester, o filme brinca o tempo inteiro com a distância entre aparência e desejo dentro daquela sociedade rígida e cheia de protocolos. Visualmente, também chama muita atenção. Os figurinos, os interiores do palácio e toda a recriação da Espanha do século XVII ajudam a dar ainda mais charme para essa mistura de comédia histórica e crítica de costumes. E o elenco parece se divertir bastante com a proposta. Destaque especial para Fernando Fernán Gómez, que conquistou o Goya de Melhor Ator Coadjuvante pelo filme. Aliás, "O Rei Pasmado e a Rainha Nua" saiu da cerimônia do Prêmio Goya 1992 com oito estatuetas, incluindo Melhor Filme e Melhor Direção. 

Mas talvez o mais interessante seja perceber como a história continua atual. No fundo, o filme fala sobre sociedades que transformam algo simples e natural em escândalo coletivo. Uma dica de fim de semana perfeita para quem gosta de comédias inteligentes, sátiras históricas e filmes que usam humor para cutucar estruturas de poder sem nunca perder a elegância. O inverno chegou, todo mundo já andando encapotado... será mesmo que a rainha vai ficar peladona?

Ficha técnica
“O Rei Pasmado e a Rainha Nua” | “El rey pasmado” (título original) | “O Rei Pasmado” (título em Portugal)
Gênero: comédia, histórico, sátira. Duração: 104 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1991. Idioma: espanhol. Direção: Imanol Uribe. Roteiro: Imanol Uribe, Joaquín Oristrell e Rafael Azcona (baseado na obra de Gonzalo Torrente Ballester). Elenco: Fernando Fernán Gómez, María Barranco, Laura del Sol, Juan Diego, Gabriela Toscano. Distribuição no Brasil: Disponível em Belas Artes À La Carte. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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sexta-feira, 26 de junho de 2026

.: Música: Prime Vídeo disponibiliza documentário de Paul McCartney


Por
Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

O streaming Amazon Prime Video disponibilizou para os assinantes o documentário "Man On The Run" que narra a trajetória do ex-beatle Paul McCartney no período p´pós-Beatles e a criação da banda Wings, até chegar na sua atual carreira solo. O documentário é narrado por McCartney. Mas está longe de ser uma produção tipo chapa branca. Nele são mostrados não só os pontos positivos como também as mancadas homéricas, como a sua prisão em 1980 no Japão por porte de entorpecente.

Ainda que mostre de uma forma superficial, a produção acaba conseguindo mostrarcomo o músico superou a desconfiança inicial da mídia sobre o seu trabalho na época. O Wings teve várias formações. permanecendo o aeu  nucleo com McCartney. Linda Eastman e Denny Lane. E deixou gravados álbuns antológicos, como o Band on the Run, de 1973 E Venus And Mars, de 1975.

Além de imagens raras da época, a produção utiliza como trllha sonora as canções clássicas de McCartney, acentuando o clima saudosista. Destaco a gravação de Band on TheRun, que foi realizada na Nigeria com vários problemas técnicos e situações turbulentas. Na prática, o documentário joga uma luz na trajetória vitoriosa do ex-beatle. Comprovando que nem sempre esse caminho foi um mar de rosas. Mas solidifivou o mito  e seu talento nato para a música pop mundial.

"Band On The Run"

"My Love"

Trailer de "Man On The Run"


quarta-feira, 24 de junho de 2026

.: Filme "Um Dia Nossos Segredos Serão Revelados" transforma desejo proibido


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Poucos filmes recentes abraçaram o romantismo trágico com tamanha convicção quanto "Um Dia Nossos Segredos Serão Revelados". Dirigido pela cineasta alemã Emily Atef, o longa-metragem é um dos mais vistos da  plataforma de streaming Reserva Imovision, carregando a atmosfera de um amor capaz de consumir tudo ao redor, enquanto observa um dos momentos mais decisivos da história contemporânea alemã: os meses que sucederam a queda do Muro de Berlim.

Baseado no romance homônimo da escritora Daniela Krien, o filme transporta o espectador para o verão de 1990, na antiga Alemanha Oriental. O país vive a expectativa da reunificação, mas a transformação política permanece ao fundo. O centro da narrativa é Maria, jovem prestes a completar 19 anos que divide os dias entre a fazenda da família do namorado, Johannes, e as páginas dos livros que devora compulsivamente. Entre eles, "Os Irmãos Karamázov", de Fiódor Dostoiévski, obra cuja presença dialoga diretamente com os conflitos morais e emocionais da protagonista.

Interpretada com impressionante magnetismo por Marlene Burow, Maria encontra no vizinho Henner, vivido por Felix Kramer, um homem marcado pela dureza da vida, pela solidão e por segredos nunca totalmente revelados. O encontro entre os dois desencadeia uma atração imediata, física e emocional, que cresce até assumir contornos obsessivos. Johannes, personagem de Cedric Eich, torna-se o terceiro vértice de uma relação atravessada por culpa, desejo e inevitáveis consequências.

Emily Atef assina a direção e também o roteiro, desenvolvido em parceria com Daniela Krien e Josune Hahnheiser. Conhecida por obras como "Mais que Nunca", a cineasta franco-alemã demonstra novamente interesse por personagens que enfrentam dilemas íntimos em períodos de profundas mudanças. Em "Um Dia Nossos Segredos Serão Revelados", ela constrói uma narrativa sensorial, apoiada em diálogos econômicos e em uma poderosa comunicação visual.

A atuação de Marlene Burow merece atenção especial. A jovem atriz sustenta a narrativa com uma presença ao mesmo tempo delicada e inquieta. O olhar da atriz frequentemente diz mais do que os diálogos. Felix Kramer, por sua vez, entrega um personagem difícil de decifrar, alternando brutalidade, fragilidade e melancolia. 

Os extensos campos da Turíngia, região onde ocorreram as filmagens, transformam-se em reflexo do estado emocional dos personagens. A câmera captura o calor do verão, a poeira das estradas rurais, a vastidão das plantações e os corpos em permanente tensão. O trabalho fotográfico cria um contraste marcante entre a liberdade aparente daquele cenário e os aprisionamentos afetivos vividos por Maria.

Selecionado para a Competição Oficial do Festival Internacional de Cinema de Berlim de 2023, o longa-metragem despertou debates entre crítica e público. Enquanto alguns enxergaram uma vigorosa história de amadurecimento e descoberta sexual, outros questionaram a romantização de uma relação marcada pela diferença de idade e por evidentes desequilíbrios emocionais.

Curiosamente, embora a reunificação alemã seja um dos acontecimentos mais importantes do século XX, Emily Atef evita transformá-la em tema central. O processo histórico surge em pequenos detalhes: novos produtos vindos do Ocidente, mudanças de comportamento, sonhos de prosperidade e incertezas sobre o futuro. 

Entre referências literárias, paisagens de rara beleza e uma história de amor destinada ao conflito, "Um Dia Nossos Segredos Serão Revelados" convida o espectador a percorrer os territórios contraditórios do desejo. O resultado é um retrato íntimo de uma geração que testemunhava o fim de um mundo enquanto tentava compreender os próprios sentimentos.

Ficha técnica
"Um Dia Nossos Segredos Serão Revelados" | "Irgendwann werden wir uns alles erzählen" (título original) | "Um Dia Havemos de Contar Tudo Uns aos Outros" (título em Portugal)
Gênero: drama, romance, histórico. Duração: 129 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 2023. Idioma: alemão. Direção: Emily Atef. Roteiro: Emily Atef, Daniela Krien e Josune Hahnheiser. Elenco: Marlene Burow, Felix Kramer, Cedric Eich, Silke Bodenbender, Florian Panzner, Jördis Triebel, Christian Erdmann, Christine Schorn e Peter Schneider.
Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: "Crime de Amor" transforma romance operário em poderosa crítica social


Entre máquinas barulhentas, corredores de fábrica e apartamentos modestos da Itália industrial dos anos 70, “Crime de Amor”, dirigido por Luigi Comencini e em cartaz na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, transforma uma história de amor aparentemente simples em algo muito mais devastador. É um filme sobre amor, mas também sobre trabalho, desigualdade, insegurança, além de preconceito e a tentativa de preservar afeto e dignidade em um mundo cada vez mais duro.

Nullo, interpretado por Giuliano Gemma, é um jovem operário do norte da Itália que se apaixona por Carmela, vivida por Stefania Sandrelli, uma trabalhadora siciliana ligada a tradições familiares e religiosas muito fortes. O relacionamento entre os dois surge de forma delicada em meio à rotina pesada da fábrica. Mas aos poucos o filme vai revelando que aquele romance também carrega grandes tensões sociais. 

Existe um choque constante entre o norte industrializado e politizado da Itália e o sul mais conservador e tradicional representado por Carmela. E tudo isso aparece de forma muito natural dentro da relação dos personagens. Ao mesmo tempo, o ambiente de trabalho vai ganhando um peso cada vez maior na narrativa. As condições tóxicas da fábrica começam a afetar diretamente a saúde de Carmela, e o filme passa então a mostrar como aquele amor tenta sobreviver num sistema brutal, desumano e indiferente ao sofrimento dos trabalhadores. 

O mais bonito em “Crime de Amor” é a maneira como Luigi Comencini mistura romance e crítica social sem transformar os personagens em símbolos ou discursos ambulantes. Tudo parece muito vívido e próximo da realidade, e isso torna o impacto emocional ainda mais forte. Apresentado em competição no Festival de Cannes de 1974, o filme reúne dois rostos importantíssimos do cinema italiano daquela época. Giuliano Gemma, conhecido principalmente pelos faroestes italianos, mostra nesse filme um lado muito mais sensível e contido. Já Stefania Sandrelli entrega uma atuação delicada e extremamente emocionante, daquelas que permanecem na memória muito depois do final. 

Ficha técnica
"Crime de Amor" | "Delitto d'amore" (título original) | "Delito de Amor" (título em Portugal)
Gênero: drama, romance. Duração: 108 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1974. Idioma: italiano. Direção: Luigi Comencini. Roteiro: Luigi Comencini e Ugo Pirro. Elenco: Giuliano Gemma, Stefania Sandrelli, Brizio Montinaro, Renato Scarpa, Rina Franchetti, Emilio Bonucci, Pippo Starnazza, Walter Valdi, Bruno Cattaneo, Luigi Antonio Guerra e Carla Mancini. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.

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