domingo, 10 de maio de 2026

.: Mariana Salomão Carrara fala sobre linguagem, Justiça e desconforto


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com

O processo começa como tantos outros: um prazo estourado, uma cobrança formal, a necessidade de responder a instâncias superiores. Mas, no caso de "Cláudia Vera Feliz Natal", novo romance de Mariana Salomão Carrara publicada pela Editora Todavia, a resposta não se limita ao que se espera de um juiz. O que deveria caber em linhas técnicas se alonga, hesita, é contaminado por memórias, desconfortos, e uma intimidade que não costuma despachar nada. Aos poucos, a defesa vira outra coisa.

Autora dos premiados romances "Não Fossem as Sílabas do Sábado" e " Árvore Mais Sozinha do Mundo", Mariana Salomão Carrara desta vez parte de um ambiente em que cada palavra carrega peso institucional para acompanhar um personagem que já não consegue sustentar a distância entre a função e a vida. As comarcas se sucedem, os vínculos rareiam, e o que se acumula não é só trabalho. Há um cansaço difícil de nomear, uma espécie de desencontro persistente com os outros, com o lugar, consigo próprio.

Sem recorrer a qualquer ideia de bastidor pitoresco, o livro circula por situações em que o cotidiano do Judiciário se aproxima do absurdo. E é nesse deslocamento que a narrativa encontra ritmo: quando o protocolo continua de pé, mas já não dá conta.

Nesta entrevista exclusiva ao portal Resenhando.com, a escritora comenta o humor que atravessa o texto, a solidão que não se resolve com autoridade e o que acontece quando a linguagem, mesmo treinada para decidir, começa a falhar. Compre "Cláudia Vera Feliz Natal", o novo romance de Mariana Salomão Carrara,  neste link.


Resenhando.com - Em "Cláudia Vera Feliz Natal", você transforma um documento burocrático em matéria literária. Em que momento a linguagem jurídica deixou de ser apenas forma e passou a ser, para você, também personagem?

Mariana Salomão Carrara - Desde o início minha ideia foi trazer humor a partir do ruído entre a formalidade dos vernáculos ou construções do narrador e o jorro emocional que se inicia a partir da acusação de que se defende. Conforme os dias passam e ele segue redigindo o documento, mais ele se confessa e revela sua intimidade e grandes angústias pessoais e profissionais ao órgão corregedor, o que chega a relaxar a linguagem, mas sem perder sua referência às liturgias jurídicas. O próprio narrador satiriza o “juridiquês” mais clichê, replicando os jargões costumeiros das peças advocatícias para narrar o modo como se referem a ele. Então se pode dizer que toda essa linguagem é também personagem desse livro. É dobrada e flexibilizada conforme a emoção do narrador, e quando a lei não dá conta de promover Justiça, a linguagem jurídica está lá para escancarar a ironia do seu encastelamento.


Resenhando.com - Seu jovem juiz tenta justificar a própria lentidão, mas parece, no fundo, incapaz de dar conta do que vive. Escrever esse romance foi, de algum modo, investigar o fracasso da linguagem como ferramenta de controle? 

Mariana Salomão Carrara - Não sei se a linguagem de fato fracassa como ferramenta de controle. A linguagem jurídica é autorreferente e deixa o leigo alijado do saber que ela expõe. Faz com que o cidadão não compreenda, por exemplo, a sua sentença. Há inclusive uma cena em que o réu questiona, por uma frase que consta de sua condenação, se será “lançado ao rol dos culpados”. Embora muitas vezes automatizada e apartada da vida prática, essa linguagem não necessariamente falha em controlar, mas pode falhar em promover a justiça.  


Resenhando.com - Há um humor incômodo que atravessa o livro, uma espécie de riso que denuncia e constrange. O que a interessa mais: expor o ridículo do sistema ou revelar a fragilidade humana por trás dele?

Mariana Salomão Carrara - Não é possível separar as duas coisas, a sensação de ridículo que acompanha o livro ao mesmo tempo expõe as debilidades do sistema e a fragilidade humana, não somente dos atores da justiça, às vezes perdidos em seus rituais, ou impotentes diante da falha da própria nação em garantir direitos, mas também a fragilidade do cidadão que tem a sua vida decidida num processo.


Resenhando.com - No romance "A Árvore Mais Sozinha do Mundo", você constrói a narrativa a partir de objetos que observam. Já no novo romance, temos um sujeito que tenta se explicar. O que muda quando a narração deixa de observar e passa a se defender?

Mariana Salomão Carrara - Na "Árvore Mais Sozinha do Mundo", os objetos narram o que observam, mas também e principalmente o que sentem a partir disso, o que sentem sobre a família e a dor que supõem nos humanos. Nisso, também se defendem ou se culpam por seus defeitos – a toxidade da árvore, a inadequação da roupa de segurança, o a incapacidade da caminhonete rural de correr o suficiente para a urgência do parto. Defender-se e culpar-se são elementos da narração em primeira pessoa, e neste novo livro ganham também a dimensão jurídica da defesa e da culpa, com suas implicações. E é o susto de ter que se defender formalmente de algo que era na verdade um bom exercício do seu ofício que dá o gatilho para toda o relato e digressões sobre a carreira, o ato decisório e a imensa solidão do narrador.


Resenhando.com - O juiz de "Cláudia Vera Feliz Natal" tem poder sobre o destino alheio, mas não consegue sustentar vínculos pessoais. A solidão, no seu livro, é uma consequência do cargo ou uma condição anterior a ele?

Mariana Salomão Carrara - O narrador traz em si algumas dificuldades de vínculo e intimidade que podemos atribuir genericamente aos homens e, também, aos profissionais do Direito, estes perdidos entre os tratamentos formais, disputas de poder e tradições consagradas. Mas também é um sujeito peculiar, que tem muito boas intenções, mas dificuldade de alcançar propriamente o outro, vincular-se inteiramente aos novos personagens da sua vida – e não parece ter deixado muitas pessoas para trás, em São Paulo. Sua solidão é involuntária, agravada pelo deslocamento e pela sensação de ser um estrangeiro nas pequenas comarcas, mas sua inabilidade social e íntima é bastante particular sua. Tem alguma dificuldade em se conectar com as próprias emoções e faz o que pode para compreender a dos outros.


Resenhando.com - Você revisita pequenas comarcas do interior do Mato Grosso, mas evita qualquer exotização. Como equilibrar o olhar crítico sem transformar esses espaços em caricatura, algo que o próprio livro parece ironizar?

Mariana Salomão Carrara - Eu gostei da ideia de que a escolha das comarcas do livro tenha sido fruto do acaso, assim como a trajetória do narrador e de tantos profissionais aprovados em concursos em diversos estados, lotados na cidade que calhou no momento da aprovação. Eu quis descobrir junto com o juiz como seria a vida dali em diante. Um colega defensor passou a me contar em detalhes sua experiência, trazendo não só pequenos ou grandes casos e relatos do dia-a-dia profissional, mas principalmente sua sensação ao viver o deslocamento geográfico, começar uma carreira longe de sua cidade, deixar uma grande metrópole para fazer parte do sistema de justiça de uma comarca pequena, em que os atores do judiciário acabam sendo figuras conhecidas pela população, com certa notoriedade e ao mesmo tempo em perene estranhamento alienígena, com suas roupas e vernáculos solenes, e completa falta de vínculos e raízes naquele estado. Coletei depoimentos de pessoas que atuaram na burocracia de fóruns de cidades pequenas de todo o Brasil, bem como juízes, promotores, procuradores e defensores que passaram por comarcas muito pequenas ao longo de suas carreiras, inclusive, mas não somente, no Mato Grosso. A ideia foi partir dessas três cidades, com a peculiaridade de seus nomes, mas para representar algo que vai além de especificidades locais, e abordar uma realidade nacional, existente em interiores de muitos estados brasileiros, e focar na experiência desses agentes da Justiça deslocados de seus universos para lugares distantes de suas casas e com características difíceis de apreender rapidamente na atuação profissional. Então, não se trata, diferentemente do "Árvore Mais Sozinha do Mundo", de um retrato da vida naquelas cidades, mas do olhar solitário desse juiz, que acaba isolado também por alguma empáfia, própria talvez do status e da relação das capitais com as áreas ditas provincianas. O olhar crítico não recai especificamente sobre as cidades nomeadas, mas sobre o sistema jurídico em comarcas pequenas, desigualdades sociais e injustiças regionais e nacionais, sendo que a visão mais caricatural é a do olhar do narrador, que precisa de todo esse percurso narrando sua trajetória nessa peça de defesa para construir uma nova relação com o seu entorno.


Resenhando.com - Há uma recorrência de personagens femininas fortes e tensionadas em sua obra, enquanto aqui o foco recai sobre um homem em crise. O que a interessou nesse deslocamento de perspectiva?

Mariana Salomão Carrara - Embora seja narrado por um homem, é também uma outra forma de falar das mulheres. O olhar dele sobre o seu relacionamento é uma forma de imaginarmos o que na verdade ela poderia estar vivenciando com ele. Os casos jurídicos, principalmente o caso que o levou à total indecisão, é sobre maternidade e vínculos entre mulheres, e ele vem a partir da debilidade do juiz da própria letra da lei para compreender a situação. Então, o deslocamento de perspectiva traz novo ângulo para os mesmos temas, e traz também a possibiidade de passear pela amizade masculina, a dificuldade de intimidade entre amigos homens, e a solidão de um homem que quer ser uma boa pessoa, já sabe os caminhos éticos inclusive para o feminismo, mas se perde totalmente ao colocá-los em prática nas relações pessoais.


Resenhando.com - Sua escrita é frequentemente descrita como inventiva, mas também profundamente ancorada no real. Até que ponto a experimentação formal, para você, é um risco, e até que ponto é uma necessidade ética?

Mariana Salomão Carrara - Só consigo escrever escrevendo, ou seja, não sou capaz de desenhar em abstrato um enredo, uma frase, um planejamento de linguagem. Então, a inventividade vai me surpreender no ato da escrita, e conduzirá, a partir das palavras, o estilo da obra e a voz narrativa. Então, posso dizer que não há cálculo possível para mim, se haverá experimentações, riscos, reiterações. O que posso dizer é que, como leitora, o que me agrada é que o conteúdo traga uma visão de mundo interessante, e chegue elevado por um profundo prazer estético, que normalmente está ligado à habilidade com a linguagem, seja inventiva ou somente muito bem articulada literariamente. 


Resenhando.com - Depois de conquistar reconhecimento com obras como "A Árvore Mais Sozinha do Mundo", o que ainda a desestabiliza na escrita? Em outras palavras: o que você ainda não sabe fazer e, talvez, escreva justamente para descobrir?

Mariana Salomão Carrara - O que a vida de escritora mais me revela é o poder da literatura e a força dos leitores sobre o livro. Descubro com os leitores mais lados do que eu mesma escrevi.

.: Crônica: Elite. Ou quase, de Eduardo Caetano


Por Eduardo Caetano, jornalista, escritor e roteirista. 

Maio, Mês das Mães, de Nossa Senhora de Fátima e dos Trabalhadores. Fim da escala 6x1 em pauta. Estados Unidos e Irã em guerra. Ou quase. Véspera do encontro entre Lula e Trump. Na mídia: o pós-briga de Neymar Jr. e Robinho Jr.. Nas redes, a quase briga de Jojô Ex-Todynho e Malévola. É maio, mas parece verão. Maré alta. 

Moro em Santos, famoso balneário do litoral paulista. Cidade de médio porte, detentora do maior Porto do Hemisfério Sul. Terra da Liberdade e da Caridade, referência na luta abolicionista, sediou o segundo maior quilombo do Brasil e já não tinha escravizados dois anos antes da Lei Áurea. Hoje, possui a maior favela de palafitas da América Latina.

A Cidade tem este nome pois temos a primeira Santa Casa de Misericórdia de Todos os Santos. Todos os santos: Santo Antônio, São Francisco, Santa Clara, Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora de Fátima, São João, Santa Rita de Cássia, São Jorge... Todos! 

Todos somos irmãos. Iguais perante a lei. Ou quase. Fazia tempo que eu não escrevia coisas puramente da minha cabeça e uma cena na noite de hoje, num supermercado, chamou a minha atenção. Um estabelecimento grande, popular, de rede, em um bairro intermediário. Nem nobre, nem periférico. Perto da Santa Casa. Aquela, da misericórdia.

Três mulheres conversavam. A mais simpática, cara de boa gente, falava às amigas, próxima à gôndola de guardanapos de papel e copos plásticos. Não eram ricas. Não eram tão pobres. Remediadas. Ou quase.

- Agora eu tô bem. Outro dia a moça foi limpar lá em casa e senti uma energia ruim, sabe? Até que ela me contou: 'não tô bem porque meu filho tá preso'. Acredita?! Eu não mereço isso. Não chamo mais!

As outras concordaram. A saúde mental da patroa não se abate pela dor da empregada, mas pela "energia" dela. Em tempos de inteligência artificial, as emoções são superficiais. Duram 15 segundos, como um reels visualizado no Instagram. A diarista, possivelmente sem Carteira de Trabalho assinada, sem plano de saúde e psicóloga, é tão descartável quanto guardanapos de papel e copos plásticos.

Isso em Santos, onde se tornou comum presenciarmos cachorros em carrinhos de bebê nos shoppings. Há farmácias, Oxxos e moradores em situação de rua se multiplicando a cada esquina.

Caridade? Liberdade? Empatia? Misericórdia?

Mãe condenada no Mês das Mães. Trabalhadora condenada no Mês dos Trabalhadores. 

O mundo está acabando. Ou quase.

sábado, 9 de maio de 2026

.: "O Pai" e "O Filho" voltam em cartaz ao mesmo tempo em São Paulo


Dirigidas por Léo Stefanini, as peças mergulham, a partir de diferentes perspectivas, na teia complexa das relações familiares. Fotos: João Caldas Filho ("O Pai") e Ronaldo Gutierrez ("O Filho")

Celebrado em todo o mundo, o premiado dramaturgo francês Florian Zeller teve nos últimos anos duas de suas peças dirigidas pelo brasileiro Léo Stefanini. E agora esses trabalhos de sucesso podem ser conferidos simultaneamente em São Paulo. "O Pai" ganha uma nova temporada de 22 de maio a 26 de junho no Teatro Renaissance; e "O Filho", sucesso mundial montado nos 5 continentes, fica em cartaz de 6 de junho a 5 de julho no Teatro B32.

Estrelada por Fulvio Stefanini, que ganhou o prêmio Shell de melhor ator por este trabalho e comemora 71 anos de carreira, "O Pai" conta a história de André, um idoso de 80 anos, rabugento, mas extremamente divertido, que começa a enfrentar os efeitos do Mal de Alzheimer. Com a memória falhando, sua filha se vê diante de um dilema profundo: cuidar dele ou interná-lo em um asilo para seguir sua vida ao lado de um novo amor. A história se desenvolve com delicadeza, alternando momentos de humor e emoção, e tocando o público pela humanidade com que aborda as relações familiares. 

O espetáculo estreou em 2016 e já foi visto por mais de 200 mil pessoas em suas mais de 400 apresentações. E um dos destaques desta temporada é que o próprio diretor Léo Stefanini estará em cena ao lado de seu pai, Fulvio Stefanini, com seu irmão Fulvio Stefanini Filho. É a primeira vez que os três contracenam. O elenco ainda conta com Carol Gonzalez, Lara Córdula e Carol Mariottini. 

Já "O Filho" acompanha Nicolas, um adolescente de 16 anos que se sente perdido em um difícil processo de depressão. Filho de pais separados, ele deixa a casa da mãe para morar com o pai enquanto tenta reencontrar o sentido em sua vida.  O texto provoca uma reflexão sobre as relações familiares, os mistérios insondáveis da mente e a depressão na adolescência, que tem aumentado exponencialmente nos últimos anos em todas as classes sociais. Nesta temporada, a atriz Maria Flor substitui Maria Ribeiro e o elenco ainda conta com Andreas Trotta, Gabriel Braga Nunes, Bruna Miglioranza, Marcio Marinello e Luciano Schwab.


"O Pai"
Ficha técnica
Texto: Florian Zeller da Academia Francesa
Tradução: Carol Gonzalez e Lenita Aghetoni
Elenco: Fulvio Stefanini, Carol Gonzalez, Fulvio Stefanini Filho, Lara Córdula, Carol Mariottini e Leo Stefanini.
Direção: Léo Stefanini
Luz e som: Diego Cortez
Figurinos: Lelê Barbieri
Produção: Foco3 Produções Artísticas
Realização: Cora Produções Artísticas

Sinopse
Fulvio Stefanini interpreta André, um idoso de 80 anos, rabugento, mas muito simpático e divertido. Com sua cabeça começando a falhar, sua filha vive um dilema: cuidar de seu pai, ou interná-lo em um asilo e ir curtir a vida com seu novo namorado.

Serviço
"O Pai", de Florian Zeller
Temporada: 22 de maio a 26 de junho de 2026
Sextas-feiras, às 21h30
Teatro Renaissance - Alameda Santos, 2233 - Jardim Paulista, São Paulo
Ingressos: R$150 (inteira) e R$75 (meia-entrada)
Vendas on-line em https://www.sampaingressos.com.br/o+pai+teatro+renaissance
Bilheteria: (11) 3069-2286 - sextas, sábados e domingos, das 14h até o início do espetáculo.
Duração: 70 minutos
Classificação: 12 anos
Capacidade: 432 lugares
Acessibilidade: teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida


"O Filho"
Ficha técnica
Autor: Florian Zeller da Academia Francesa
Tradução: Carolina Gonzales
Elenco: Maria Flor, Gabriel Braga Nunes, Bruna Miglioranza, Andreas Trotta, Marcio Marinello e Luciano Schwab.
Direção geral: Léo Stefanini.
Direção de produção: Thiago Wenzler.
Trilha Sonora Original: Sérvulo Augusto.
Desenho de Luz: Cesar Pivetti.
Figurinos: Yakini Rodrigues (Kiki)
Camareira: Iara Margarida
Operação de Luz e Som: Vinicius Souza
Técnico de palco: Bruno Caraíba
Fotografia: Ronaldo Gutierrez.
Beleza: Gabriel Ruiz

Sinopse
Nicolas é um jovem de 16 anos, apresentando sinais de depressão. Sente-se perdido. Filho de pais separados, troca a casa da mãe (Maria Flor) pela do pai (Gabriel Braga Nunes). Na peça O FILHO, o dramaturgo francês Florian Zeller mergulha na teia complexa das relações familiares para refletir sobre os mistérios insondáveis da mente e o imenso desafio em tentar ajudar um jovem a reencontrar sentido na vida. 

Serviço
"O Filho", de Florian Zeller 
Temporada: 6 de junho a 5 de julho de 2026
Sábados, às 20h00, e domingos, às 18h00
Teatro B32 - R. Lício Nogueira, 92 - Itaim Bibi, São Paulo
Ingressos: de R$ 40,00 a R$ 150,00 (preços variam de acordo com o setor)
Capacidade: 518 lugares
Duração: 65 minutos
Classificação: 16 anos
Acessibilidade: teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida

.: "Ocupação Ruth Rocha" expande o universo da autora que forma gerações


Em mais uma exposição dedicada ao público infantil e aos adultos que beberam da mesma fonte, o Itaú Cultural propõe uma jornada pela vida e obra de uma das maiores autoras da literatura infantojuvenil brasileira. Em 2026, Ruth Rocha comemora 50 anos de trajetória e é celebrada com esta mostra, a reedição de um de seus livros e sendo tema da Mancha Verde no próximo Carnaval. Foto: Andŕe Seiti / Fundação Itaú

 
Todos os dias, às 16h00, o telefone toca na casa de Ruth Rocha, 95 anos. É sua irmã Rilda, 97. Elas se falam para cumprir um ritual: a mais velha lê para a mais nova. A cena simboliza a adoração que ambas têm pelos livros desde pequenas e resume a essência da premiada escritora. Há cinco décadas – desde que publicou "Marcelo, Marmelo, Martelo" (editora Salamandra, 1976), com ilustrações de Adalberto Cornavaca, e "Palavras, Muitas Palavras" (editora Abril, 1976), voltado para a alfabetização –, Ruth dedica a vida a cultivar o gosto pela leitura e o pensamento crítico nas crianças. É disso que trata a "Ocupação Ruth Rocha", que abre neste sábado, dia 9 de maio no Itaú Cultural e permanece em cartaz até 2 de agosto.

Com curadoria e expografia assinadas pela equipe do Itaú Cultural, a mostra não se limita a expor livros. Ela propõe um diálogo entre ontem e hoje em um percurso pautado por descobertas afetivas. O público é guiado pelas diferentes fases da vida e obra da autora entre cores vibrantes, do amarelo-canário ao vermelho-profundo. O conteúdo exposto é projetado na altura dos olhos das crianças e a expografia com colunas de papelão vazadas permite que elas saibam antecipadamente as novidades que as esperam do outro lado.

A exposição se junta a outras comemorações pelos mais de 50 anos de trajetória da autora: a Salamandra, sua editora exclusiva, prepara o lançamento de uma nova edição de Um cantinho só para mim, originalmente publicada em 2005, com textos de Ruth e ilustrações de Ziraldo. Além disso, a escritora também será o tema enredo da escola de samba Mancha Verde no Carnaval de 2027.

“Toda criança do mundo mora no meu coração” é a frase de Ruth estampada em sua fotografia, em uma colagem de personagens que habitam o imaginário de sua obra. Assim a autora recebe todos os públicos na exposição, das crianças aos adultos. Ali mesmo, na parede oposta, o visitante começa a descobrir mais sobre o universo da homenageada, desvendando o primeiro espaço: uma instalação chamada Ruth de A a Z. 

Trata-se de uma composição com 26 módulos de madeira que guardam segredos. Seguindo o abecedário, gavetas e nichos revelam livros originais, monóculos com fotos de família e vídeos que resgatam memórias da autora. O espaço funciona como um dicionário biográfico. Na letra B, de borboleta, por exemplo, está um de seus livros iniciais, Romeu e Julieta, no qual duas borboletas de cores diferentes não podem brincar, em uma alusão lúdica ao racismo. Na letra C, de canto, há um vídeo inédito de Ruth cantando com a filha, Mariana, em dezembro passado. Pulando para a E, de Eduardo, tem uma homenagem ao marido e parceiro de vida, com fotos do casamento de 1956.

Seguindo o percurso, no espaço central estão dois telefones tradicionais. Ao serem retirados do gancho, eles transmitem narrações de histórias de Ruth em sua própria voz. É como se fosse uma extensão do ritual diário entre ela e a irmã. Perto dali uma parede inteira é dedicada ao personagem de Marcelo, marmelo, martelo, exibindo suas diversas faces. Em uma espécie de linha do tempo, é possível acompanhar a evolução dele por meio dos traços de diferentes ilustradores ao longo destas cinco décadas. Há também uma nuvem de ideias, onde crianças podem renomear objetos, inspiradas no menino Marcelo, que passa a vida procurando uma lógica para os nomes das coisas. 

O visitante também encontra as caixas de história. São pequenos mini teatros que contêm cenas montadas de contos da autora, visíveis por uma pequena abertura frontal. Elas são acompanhadas de áudios retirados do álbum Mil pássaros, um projeto da dupla Palavra Cantada em parceria com Ruth. A escritora narra suas próprias histórias com músicas de Sandra Peres e Paulo Tatit. Uma delas é o livro Bom dia, todas as cores!, a história do Camaleão que acorda feliz e resolve se vestir de rosa, sua cor preferida. Ao longo do caminho, ele vai encontrando seus amigos Pernilongo, Sabiá-Laranjeira, Louva-a-Deus e vai mudando de cor para agradá-los, até ficar cansado. É um clássico sobre a importância de ter opinião própria.

Uma rampa conduz para o espaço Ruth para Ler, ambiente que remete a uma biblioteca acolhedora, com tatames e almofadas, convidando pais e filhos a sentarem no chão e lerem juntos. Ali também é exibida a máquina de escrever original de Ruth Rocha e sete cadernos de anotações pessoais, entre fac-símiles e originais, além do acervo completo da autora disponível para manuseio. Em toda a exposição há mapas e objetos táteis posicionados de modo que a obra de Ruth seja explorada pelo toque. Vídeos com interpretação em Libras acompanham os principais núcleos, garantindo que depoimentos da autora e de familiares, amigos e parceiros cheguem a todos os visitantes do Itaú Cultural.


Serviço
"Ocupação Ruth Rocha"
Abertura: 9 de maio de 2026, às 11h
Visitação: até 2 de agosto de 2026
Terças-feiras a sábados, das 11h às 20h, e domingos e feriados das 11h às 19h
Piso térreo
Concepção e realização: Itaú Cultural
Curadoria: Equipe Itaú Cultural
Projeto expográfico: Érica Pedrosa, Iago Germano, Rodrigo Auba e Sofia Gava (terceirizada)
Projeto de acessibilidade: Equipe Itaú Cultural
 

Itaú Cultural
Avenida Paulista, 149 – próximo à estação Brigadeiro do metrô | Entrada gratuita
Espaços acessíveis: o prédio do Itaú Cultural apresenta facilidades para pessoas com deficiência física
‍Estacionamento: entrada pela Rua Leôncio de Carvalho, 108
Com manobrista e seguro, gratuito para bicicletas
Mais informações: Telefone: (11) 2168-1777. WhatsApp: (11) 96383-1663. E-mail: atendimento@itaucultural.org.br

.: "Onde Moram os Livros? Bibliotecas do Brasil" de Daniela Chindler é lançado


Há 15 anos, quando Daniela Chindler começou a pesquisar a histórias das bibliotecas, ela não podia imaginar a repercussão que alcançaria seu trabalho. Em 2012, a autora lançou o título “Bibliotecas do Mundo”, que recebeu o prêmio Malba Tahan de Melhor livro informativo para crianças e jovens pela FNLIJ e logo foi adaptado para o teatro. A peça foi apresentada em escolas, teatros e teve o privilégio de ser encenada na entrada da Biblioteca Nacional! Em 2017 a autora voltou seu olhar para as nossas fronteiras e escreveu “Onde Moram os Livros? Bibliotecas do Brasil”. 

Rapidamente a edição se esgotou e o texto foi também adaptado para a cena e a peça foi apresentada em três estados: Rio de Janeiro, Maranhão e Pará. Agora “Onde moram os livros? "Bibliotecas do Brasil” ganha uma nova edição pela Editora Sapoti. O livro já chega apostando na democratização do acesso à cultura: kits com 20 exemplares serão distribuídos para 49 escolas públicas - e mais a biblioteca da Rede da Maré, e o projeto conta com o apoio dos Institutos Parceiros da Educação Rio e Frevo. O objetivo é estimular que os estudantes leiam o livro nas salas de leitura. 

 “Onde Moram Os Livros? Bibliotecas Do Brasil” é um convite para os leitores viajarem pelo Brasil explorando a arquitetura, os mistérios, as curiosidades e as coleções de seis bibliotecas. A viagem começa pelo Rio de Janeiro, pelo suntuoso palácio construído para abrigar a Biblioteca Nacional e o edifício do Real Gabinete Português de Leitura, considerada uma das bibliotecas mais lindas do mundo. Depois é a vez de conhecer, em São Paulo, a Biblioteca Mário de Andrade, um enorme prédio que reflete a cidade que não para de crescer. Representando o Nordeste está a Biblioteca do Mosteiro de São Bento da Bahia e, subindo mais no mapa, no Norte, a Biblioteca Pública do Amazonas, que promove uma visita à efervescência de Manaus, a capital do Amazonas, durante o ciclo da borracha. De lá, a viagem continua pelo Sul do Brasil, na Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul, conhecida por ser uma caixinha de joias. 

Para essa aventura literária, a escritora Daniela Chindler contou com a colaboração de seis personagens que são os mestres de cerimônia. Cada lugar tem um personagem que recebe o leitor na porta e segue como um guia, descortinando a sua história. No Real Gabinete Português de Leitura, ali na página 38 Luís de Camões, o próprio poeta, vai contar suas aventuras e desventuras enquanto passeia pelas estantes desta casa portuguesa com certeza. Já na página 76 é a vez do escritor modernista Mário de Andrade - de gravata amarela e chapéu de aba meio larga enterrado na cabeça - conduzir os leitores pela torre de 22 andares, que foi um dos primeiros “arranha-céus” da cidade, nos anos 1930, quando São Paulo estava começando a crescer “para cima”.

Este é um livro feito a muitas mãos. Além dos personagens, a autora convidou um time de ilustradores premiados. Da Bahia vem Amma; do Sul Bruna Assis Brasil; de São Paulo, Catarina Bessell e Giovanna Cima; e do Rio de Janeiro, Camilo Martins. Aliás no finalzinho do livro tem uma página dupla com uma mini bio dos artistas.

Falamos de seis bibliotecas, mas são sete capítulos! A escritora reservou o último capítulo do livro para apresentar uma biblioteca que ainda não existe com tijolos e concreto, mas já é um sonho para muita gente: A Biblioteca dos Saberes que será erguida em 2027 na Pequena África, colada na Passarela do Samba e de frente ao monumento do Zumbi dos Palmares, no Rio de Janeiro. O espaço tem projeto assinado por Diébédo Francis Kéré, o primeiro arquiteto do continente africano a receber o prestigiado Prêmio Pritzker de Arquitetura (2022), considerado o "Nobel" da área. Neste capítulo estão Kéré, Zumbi dos Palmares, Heitor dos Prazeres e o povo originário Tupinambá. Compre os livros de Daniela Chindler neste link.


Sobre a autora
Daniela Chindler é autora das visitas teatralizadas da Academia Brasileira de Letras elaboradas para o centenário ABL, projeto que, por conta do sucesso, ficou 15 anos em cartaz e que rendeu outros projetos como a visita teatralizada no Theatro Municipal, em 2025. A autora foi curadora da programação infantojuvenil de várias edições da Bienal do Livro no Rio de Janeiro, da Bienal do Amazonas e da Bahia. É idealizadora do projeto de incentivo à leitura, “História além muros” na penitenciária Talavera Bruce que ganhou o Prêmio “Faz Diferença” do Jornal O Globo e é finalista do prêmio “VivaLeitura”. Dentre seus livros publicados, está “Um porto para o mar”, que conta a história da cidade do Rio de Janeiro a partir da Baía de Guanabara. A autora também escreveu sobre cientistas, pintores, viagens a lugares distantes, como a Índia, histórias de imigrantes e outros assuntos.


Biblioteca dos Saberes
A Biblioteca dos Saberes fala da ancestralidade das pessoas negras e homenageia os povos indígenas. No Centro da Biblioteca dos Saberes, está prevista uma torre, que é como uma árvore da vida e seu formato é uma homenagem a um objeto sagrado que ficou por 300 anos longe de casa: um manto Tupinambá. Quando o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista pegou fogo, a Dinamarca decidiu devolver um dos mantos e a chegada da peça histórica ao Rio de Janeiro foi emocionante, contou com a vigília de 170 indígenas do povo Tupinambá, incluindo crianças e anciãos, em frente ao prédio do Museu Nacional. Os Tupinambá pediram que o manto fosse exibido em pé.

Biblioteca do Mosteiro de São Bento da Bahia
A biblioteca tombada pelo IPHAN reúne o segundo maior acervo de documentos e livros raros do Brasil. A formação deste acervo começa com a chegada dos primeiros frades beneditinos que aportaram na Bahia na Páscoa de 1582. É uma história que tem personagens como a índia Catarina Paraguaçu. Muitas das informações foram dadas pelos monges em conversas pelo WhatsApp.

 
Biblioteca Nacional
Pedro II doou as fotos que colecionou durante toda a vida para a Biblioteca Nacional. Sua única exigência foi que a coleção recebesse o nome de sua esposa, a imperatriz D. Thereza Christina Maria. As fotos que não estavam em álbuns foram guardadas em caixas e, lá, protegidas nas sombras, ficaram todo esse tempo. Por estarem soltas, elas ficaram meio abauladas e por isso são chamadas carinhosamente de “enroladinhas”. D. Pedro II é o anfitrião da Biblioteca Nacional e brinca que está um pouco amassado porque saiu de uma dessas fotos enroladinhas.
 
Biblioteca Pública do Amazonas
Como a Biblioteca de Alexandria e o Museu Nacional essa biblioteca pegou fogo (em 1945) e do acervo original sobraram apenas 60 livros, que estavam emprestados para uma exposição. É uma biblioteca construída em um exuberante edifício que é um retrato do Ciclo da Borracha.


Real Gabinete Português de Leitura
Esse é o primeiro livro infantil que trata dessa biblioteca eleita uma das mais bonitas do mundo.


Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul
Biblioteca inaugurada em 1922, a sala egípcia lembra a decoração do Salão Assyrio, do Theatro Municipal do Rio de Janeiro,

 
O inferno
Muitas bibliotecas têm um setor chamado: inferno.  Este setor foi criado pelos bibliotecários para preservar os livros proibidos. Até a biblioteca do Vaticano tem seu setor do inferno. Na Biblioteca Nacional um livro de Santo Agostinho foi condenado ao inferno. É uma edição de “A cidade de Deus”, impressa em 1661. A igreja condenou quem fez os comentários, as notas de rodapé, que foram riscados com uma tinta que tinha ferro em sua composição, enferrujou e começou a perfurar as páginas com o passar dos séculos. Hoje é preciso ter todo o cuidado para folhear esse livro, porque ele pode esfarelar.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

.: Pianista pernambucano Amao Freitas ganha o prêmio Paul Acket


Por
 Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

O pianista pernambucano Amaro Freitas foi anunciado como vencedor do Prêmio Paul Acket 2026, uma das mais relevantes distinções do jazz internacional. Concedido anualmente a artistas cuja obra merece maior reconhecimento público por sua excelência e originalidade, o prêmio destaca trajetórias que vêm renovando o cenário do jazz contemporâneo em escala global. Criado em homenagem ao produtor e visionário Paul Acket, o prêmio é entregue durante o NN North Sea Jazz Festival, um dos mais importantes do mundo.

Natural de Recife, Amaro Freitas construiu uma linguagem musical singular, marcada por uma sonoridade crua e profundamente autoral. Sua obra propõe uma leitura fresca e “descolonizada” do jazz brasileiro, na qual dialogam com os elementos da tradição afro-brasileira, da espiritualidade indígena e das culturas populares. Ao entrelaçar com precisão estilos locais com o jazz contemporâneo, o pianista se consolidou como um dos músicos mais surpreendentes e virtuoses de sua geração, convidando o público a experimentar novas possibilidades sonoras.

Com seu mais recente álbum solo, "Y’Y" (2024), o artista presta uma homenagem à Amazônia - o título remete a uma palavra indígena para “água” ou “rio” - e propõe uma escuta atenta e respeitosa da natureza. A obra transita entre momentos de intensidade e contemplação, evocando, em sua primeira parte, as paisagens sonoras da floresta brasileira, e, na segunda, sua abordagem ao jazz contemporâneo. O disco conta ainda com colaborações de nomes como Brandee Younger, Jeff Parker e Shabaka Hutchings, ampliando o diálogo internacional de sua música.

"Baquaqua"

"Dona Eni"

.: Filme “Valor Sentimental”, vencedor do Oscar, em cartaz no Cine Arte Posto 4


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com

Filme que desbancou o premiado longa-metragem brasileiro "O Agente Secreto" no Oscar 2026 na categoria Melhor Filme Internacional, o drama “Valor Sentimental”, novo longa-metragem do cineasta norueguês Joachim Trier, está em cartaz até dia 13 de maio, às 15h00, 17h30 e 20h00, no Cine Arte Posto 4, o cinema localizado na orla da praia de Santos, no litoral de São Paulo. A trama investiga as fissuras emocionais de uma família marcada pela ausência paterna. 

No centro da narrativa está Nora, vivida por Renate Reinsve, atriz de teatro em plena maturidade profissional que se vê obrigada a revisitar conflitos mal resolvidos ao reencontrar o pai, Gustav Borg, interpretado por Stellan Skarsgård, um cineasta outrora celebrado que tenta retomar a carreira com um roteiro inspirado na própria família. 

A recusa de Nora em protagonizar o projeto abre espaço para a entrada de Rachel Kemp, jovem estrela hollywoodiana vivida por Elle Fanning, o que aprofunda ainda mais as tensões entre arte, vaidade e ressentimento. Completam o núcleo principal Inga Ibsdotter Lilleaas, no papel da irmã Agnes, e Anders Danielsen Lie, colaborador frequente do diretor.


“Valor Sentimental” | “Sentimental Value” (título original)
Gênero: drama.
Classificação indicativa: 14 anos.
Ano de produção: 2025.
Idioma: inglês.
Direção: Joachim Trier.
Roteiro: Joachim Trier e Eskil Vogt.
Elenco: Renate Reinsve, Stellan Skarsgård, Elle Fanning, Inga Ibsdotter Lilleaas, Anders Danielsen Lie.
Distribuição no Brasil: Retrato Filmes / MUBI.
Duração: 2h13.
Cenas pós-créditos: não.
Em cartaz até dia 13 de maio


Cine Arte Posto 4
Av. Vicente de Carvalho - Gonzaga - Santos/SP
Sessões às 15h00, 17h30 e 20h00
Funcionamento: terça a domingo (fechado às segundas-feiras)
Ingressos a R$ 3,00 (inteira) e R$ 1,50 (meia-entrada). Pagamento somente em dinheiro, temporariamente.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

.: “Luta Pelo Amanhã” usa muay thai para reconstruir relações quebradas


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico cultural, especial para o portal Resenhando.com.

A estreia de "Luta Pelo Amanhã", nesta quinta-feira, dia 7 de maio,  aposta na fisicalidade das artes marciais para narrar uma história que, no fundo, é menos sobre golpes e mais sobre vínculos partidos. Dirigido por Chan Tai-Lee, o longa-metragem distribuído pel A2 Filmes conduz o espectador pelas ruas densas de Hong Kong, onde passado e presente colidem com a mesma intensidade de um ringue.

No centro da narrativa está Shi San-lung, ex-líder do submundo que tenta reconfigurar a própria existência após anos afastado do crime. O reencontro com o filho, no entanto, não oferece redenção imediata: ao contrário, funciona como gatilho para que antigas rivalidades retornem com força, arrastando ambos para um ciclo de violência que parecia encerrado. É nesse contexto que o Muay Thai surge não apenas como ferramenta de combate, mas como linguagem simbólica: cada luta encena aquilo que não foi dito, cada movimento carrega o peso de culpas acumuladas.

Há um esforço evidente do filme em equilibrar o espetáculo físico com um drama familiar que busca densidade emocional. A presença de Patrick Tam, nome veterano do cinema asiático, contribui para dar corpo a esse conflito, sustentando a ambiguidade de um personagem que oscila entre a brutalidade do passado e a tentativa - talvez tardia - de reconstrução afetiva. Em paralelo, a ambientação reforça esse embate: a Hong Kong retratada aqui não é cartão-postal, mas território de tensões, onde tradições e transformações urbanas coexistem de maneira instável.

Curiosamente, produções recentes do cinema de ação asiático têm investido nesse cruzamento entre combate e melodrama, aproximando-se de um modelo que dialoga tanto com o público global quanto com questões locais de identidade e pertencimento. “Luta Pelo Amanhã” se insere nesse movimento ao utilizar o ringue como extensão do espaço doméstico - um lugar onde pai e filho precisam, literalmente, se enfrentar para que qualquer possibilidade de reconciliação exista.

Sem reinventar o gênero, o filme encontra força na maneira como articula seus elementos: a coreografia das lutas, a tensão entre gerações e a ideia de que o futuro, como sugere o título, é sempre uma conquista instável. Ao final, o que permanece não é apenas a memória dos combates, mas a sensação de que algumas batalhas, especialmente as familiares, jamais se encerram por completo. Locação digital nas melhores plataformas de streaming.


Ficha técnica
“Luta pelo Amanhã” | "Fight For Tomorrow" (título original)
Gênero: ação, drama.
Duração: 101 minutos.
Classificação indicativa: 16 anos.
Ano de produção: 2024.
Idioma: cantonês.
Direção e roteiro: Chan Tai-Lee.
Elenco: Patrick Tam, (demais nomes não amplamente divulgados).
Distribuição no Brasil: A2 Filmes.
Cenas pós-créditos: não.
Locação digital nas melhores plataformas de streaming.

.: “Deixando Neverland 2" desafia legado de Michael Jackson e reacende feridas


Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico cultural, especial para o portal Resenhando.com.

A estreia de “Deixando Neverland 2: Sobrevivendo a Michael Jackson”, nesta quinta-feira, dia 7 de maio, recoloca no centro do debate público uma ferida que nunca cicatrizou e, ao mesmo tempo, evidencia como o audiovisual contemporâneo tem se tornado um espaço de disputa narrativa tão intenso quanto os tribunais. Dirigido por Dan Reed, o longa-metragem que chega ao Brasil pela A2 Filmes retoma a trajetória de Wade Robson e James Safechuck, agora anos depois do impacto global causado por "Deixando Neverland 1", para acompanhar os desdobramentos judiciais e o peso prolongado das acusações contra Michael Jackson.

Com abordagem direta e sem recorrer a reconstituições dramáticas, o filme investe novamente na força dos depoimentos, ampliando o escopo para além da denúncia inicial e mergulhando nas engrenagens legais que atravancam processos dessa natureza. A narrativa expõe audiências, recursos e entraves jurídicos que, mais do que adiar decisões, revelam o quanto a figura pública de Jackson ainda mobiliza estruturas de defesa institucional e emocional. Ao mesmo tempo, Reed opta por manter o foco nas consequências íntimas: relações familiares tensionadas, traumas persistentes e o custo psicológico de enfrentar uma opinião pública frequentemente hostil.

A nova produção também surge em um contexto simbólico: enquanto cinebiografias e revisões da obra de Michael Jackson voltam a ganhar força na indústria, o documentário atua como contraponto incômodo, tensionando a memória coletiva e questionando a facilidade com que o entretenimento absorve ou silencia controvérsias. Há, inclusive, um dado curioso que atravessa sua trajetória recente: diferentemente do original - que estreou no Festival de Sundance e teve ampla difusão pela HBO -, esta sequência enfrentou dificuldades de distribuição internacional, chegando a ser disponibilizada de forma mais restrita e até considerada insatisfatória pelo próprio diretor em termos de alcance.

Esse deslocamento, longe de diminuir sua relevância, reforça o caráter quase insurgente da obra. Ao escapar dos circuitos tradicionais, “Deixando Neverland 2” se posiciona como um produto que insiste em existir apesar das barreiras, sejam comerciais, jurídicas ou simbólicas. O resultado é um filme que amplia o campo de discussão sobre abuso, poder e memória, reafirmando o documentário como instrumento de confronto e não de conciliação. Locação digital nas melhores plataformas de streaming.


Ficha técnica
“Deixando Neverland 2: Sobrevivendo a Michael Jackson” | "Leaving Neverland 2" | "Deixando Neverland 2: Sobrevivendo a Michael Jackson"

Gênero: documentário.
Duração: 53 minutos.
Classificação indicativa: 16 anos.
Ano de produção: 2025.
Idioma: Inglês.
Direção e roteiro: Dan Reed.
Elenco: Wade Robson, James Safechuck.
Distribuição no Brasil: A2 Filmes.
Cenas pós-créditos: não.
Locação digital nas melhores plataformas de streaming.

.: Manual Crônico: “Sabor média”, a nova e triste receita


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site 
Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá.

Como não apareço por aqui há algum tempo, penso que a dona de casa esteja com saudade - ou deveria, pelo menos. E, por isso, o paciente leitor há de ouvir, de forma condescendente, as minhas lamúrias advindas do mau trabalho feito pelos padeiros de hoje em dia.

Pois bem. A média pode ser muita coisa. Podemos andar por aí a fazer média com nossos pares. A Matemática nos deu a média aritmética, que tanto custou a entrar em meus miolos. O Direito nos informa sobre o homem médio, que não sei bem pra que serve. E as padarias, universo afora, servem aos clientes a boa e velha média que, para Noel Rosa, não pode ser requentada.

Por aqui, a coisa é diferente. A média de sempre não é média, é pingado, ainda que ali a proporção de leite e café vá além de um simples pingo. Não obstante as diferenças terminológicas, a coisa vai de mal a pior. Veja bem: aqui em nossa província santista (como diz um amigo cronista da região), a média não apresenta estado líquido. Ela é sólida, muito sólida e, hoje em dia, quase um tijolo. E os padeiros… ah, os padeiros! Meu amigo! Eu não sei bem o que está acontecendo com as padarias por aí. Não sei se são todas, mas sei que são muitas.

Talvez o curioso leitor esteja se perguntando o porquê de eu estar metendo o padeiro num assunto sobre média, pois, na prática, não é ele quem prepara e serve a média comum, saboreada por quase todos. Digo quase todos, porque aqui na Baixada não bebemos a média, mas a comemos - ou comíamos, não sei mais… E acabo de me dar conta de que ainda não informei o que é, para nós, a média.

Voilà:

A média aqui é pão. Sim, pão. Aquele pão gostoso, crocante, salgado, composto por apenas quatro ingredientes básicos: farinha de trigo, água, sal e fermento biológico. A boa e velha média, que hoje se tem que buscar à padaria, mas que antes chegava à porta de casa, cedinho, pelas mãos do padeiro, que dizia “não é ninguém, não. É o padeiro”, e nos despreocupávamos da pressa — a não ser que tivéssemos pressa para comê-la quentinha.

Esse mesmo pão, que por aqui se nomeia média, é, em outros lugares, pão de sal, pão francês, cacetinho, pãozinho, pão de trigo, carioquinha, pão careca, pão Jacó, filão, pão de massa grossa, ou o que se queira dizer para nomeá-lo, agora é um ex-manjar dos deuses.

Triste, muito triste…

E a culpa só pode ser dos padeiros. Se não deles, então, dos donos das padocas, que, certamente, seguindo a onda de simplificação na composição dos alimentos, tentam economizar nos ingredientes. Não encontro mais por aqui a boa e velha média, a crocante e saborosa média. Aquela que cabe na boca a cada bocada e faz crec crec durante a manducação. Antes, recebo da moça no balcão uma massa disforme, grande e boluda, que mais se assemelha a um sapo boi.

Indignadamente, protesto contra os padeiros! Abaixo os donos muquiranas das padocas contemporâneas! Sejam honestos e informem nas vitrinas de cada padaria: NESTE ESTABELECIMENTO VENDEMOS PÃO “SABOR MÉDIA”. “Sabor média”, entendeu? Porque média, mesmo, a verdadeira média da Baixada Santista, não existe mais.

Uma pena.

Compre o livro "O Pai, a Faca e o Beijo", de Thiago Sobral, neste link.

.: “12.12: O Dia” reconstrói golpe de 79 e estreia na Reserva Imovision


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico cultural, especial para o portal Resenhando.com.

Representante da Coreia do Sul no Oscar 2025, o filme “12.12: O Dia” (“Seoul Spring”) estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision, nesta sexta-feira, dia 8 de maio, ampliando o alcance de um dos maiores sucessos recentes do cinema sul-coreano. Dirigido por Kim Sung Soo, o longa-metragem é baseado em acontecimentos reais ocorridos em 1979, após o assassinato do presidente Park Chung-hee, episódio que desencadeou uma crise política e militar no país.  A produção reconstrói os eventos que culminaram no chamado golpe de 12 de dezembro, considerado um marco na história contemporânea da Coreia do Sul.

A narrativa acompanha a disputa pelo controle das forças armadas sul-coreanas durante a decretação da lei marcial. De um lado, o comandante Chun Doo-gwang, interpretado por Hwang Jung-min, lidera um movimento para consolidar poder entre oficiais aliados. Do outro, o comandante Lee Tae-shin, vivido por Jung Woo-sung, atua na tentativa de conter o avanço do grupo e preservar a ordem institucional. O elenco conta ainda com Lee Sung-min em papel de destaque, compondo um conjunto de personagens ligados à estrutura militar e política da época.

O roteiro, assinado por Kim Sung Soo com colaboração de Hong In-pyo e Lee Young-jong, estrutura a trama a partir de múltiplos núcleos, retratando diferentes pontos de vista dentro da hierarquia militar.
Selecionado como representante oficial do país para o Oscar 2025 na categoria de Melhor Longa-Metragem Internacional, o filme também alcançou desempenho expressivo nas bilheterias. Com orçamento estimado em cerca de US$ 17 milhões, ultrapassou a marca de US$ 97 milhões em arrecadação global, tornando-se a maior bilheteria da Coreia do Sul em 2023 e um dos maiores sucessos comerciais da história do cinema local.

Entre as curiosidades, destaca-se o fato de que parte dos personagens foi ficcionalizada, embora inspirada em figuras reais, estratégia adotada para viabilizar a construção dramática sem se afastar do contexto histórico. A produção também se diferencia por abordar diretamente um episódio político específico da história sul-coreana, tema menos frequente em obras voltadas ao circuito internacional.


Ficha técnica
“12.12: O Dia” | “Seoul Spring”(título original)
Gênero: Drama, ação. Duração: 2h21min. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2023. Idioma: coreano. Direção: Kim Sung Soo. Roteiro: Kim Sung Soo, Hong In-pyo, Lee Young-jong. Elenco: Hwang Jung-min, Jung Woo-sung, Lee Sung-min. Distribuição no Brasil: Sato Company. Cenas pós-créditos: não.


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A equipe do Resenhando.com acompanha os filmes por meio da plataforma de streaming Reserva Imovision, dedicada ao cinema independente e autoral. Para acessar o catálogo completo, conferir novidades e realizar sua assinatura, o aplicativo da plataforma ou o visite o site oficial neste link. A Reserva Imovision reúne filmes e séries cuidadosamente selecionados, ampliando o acesso a obras que valorizam a diversidade cultural, a reflexão e experiências cinematográficas diferenciadas.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

.: "Botão em Flor e o Jardim", onde a memória floresce em afeto


Por Cláudia Brino, escritora, ativista cultural e editora da Costelas Felinas

Esta é uma obra que será lida com a alma. "Botão em Flor e o Jardim", das autoras Mãe e Filha, como definido na capa do livro (Daniela e Marina Genaro), publicado pela Costelas Felinas Editora, pertence à rara estirpe de obras que transcendem o objeto impresso para se tornarem um relicário sentimental, um jardim de lembranças e monumento íntimo ao amor familiar.

O projeto desta obra já a distingue: uma mãe que, em meio ao cotidiano, percebeu a extraordinariedade das palavras infantis de sua filha e teve a delicadeza de registrá-las. O que poderia parecer apenas singela anotação doméstica revela-se, em um ato de altíssima sensibilidade. Guardar as frases de uma criança é preservar a centelha inaugural da linguagem, é recolher pérolas espontâneas antes que o tempo as dissolva. Daniela, ao anotar os lampejos verbais de Marina, não colecionou apenas frases: colheu auroras. 

Em expressões como: “O teu abraço eu guardei no meu coração” ou “No bolso não, mamãe. Sonho a gente guarda na imaginação”, a infância se apresenta em sua forma mais pura: inventiva, filosófica e terna. O leitor não encontra apenas a menina Marina, mas reencontra a criança universal que um dia habitou em todos nós.

A beleza do livro não reside somente na voz da filha ou no olhar amoroso da mãe. A obra se engrandece pela tessitura familiar que a compõe. O pai participa, além de escrever as orelhas do livro, como presença estruturante, afetuosa e cúmplice; figura que integra o cotidiano e o alicerce emocional dessa narrativa doméstica. Já o avô, ao prefaciar a obra também inscreve sua sensibilidade, amplia o alcance simbólico do livro: mostra que memória e ternura também se herdam, se transmitem, se cultivam entre gerações.

"Botão em Flor e o Jardim" torna-se uma constelação genealógica de afetos. Cada página pulsa como testemunho de que o amor familiar não se limita aos gestos grandiosos, mas se manifesta no detalhe, no riso espontâneo, na frase inesperada, no cuidado silencioso de quem anota para não perder, é um daqueles livros que não se colocam na estante, guardam-se no colo, na memória e no coração.
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