Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com. Foto: divulgação
Em "1975", espetáculo escrito por Sandra Massera e protagonizado por Angela Figueiredo, a memória dos desaparecimentos forçados durante a ditadura uruguaia ganha corpo em uma encenação solo, íntima e politicamente incisiva. Em cartaz na Arena B3, no Centro Histórico de São Paulo, a montagem recusa o conforto da distância histórica e aproxima o público brasileiro de um trauma que atravessa fronteiras e décadas.
Ao assumir não apenas a atuação, mas também a co-direção, a tradução e a adaptação do texto, Angela Figueiredo transforma o palco em espaço de escuta e reflexão. A peça não busca reconstruir fatos de maneira documental, mas sustentar emocionalmente aquilo que foi apagado pela violência de Estado e pelo silêncio que se seguiu. Nesta entrevista exclusiva ao portal Resenhando.com, a atriz fala sobre memória, ética, solidão, juventude sob regimes autoritários e o teatro como lugar onde a dor não é suavizada.
Resenhando.com - "1975" fala de desaparecimentos forçados, mas também de tudo aquilo que nunca voltou a ser dito. O que dói mais em cena: a violência explícita do Estado ou o silêncio que se instala depois dela?
Angela Figueiredo - A dor e as emoções da personagem não estão apenas na violência explícita do Estado, mas também no silêncio, na angústia, na perda, nas dúvidas e nas reflexões da sua vida.
Resenhando.com - Em um espetáculo construído a partir de cartas, lembranças e ausências, o que você precisou inventar para dar corpo ao que historicamente foi apagado. E também o que você se recusou a inventar por respeito à memória real?
Angela Figueiredo - Precisei criar as partes que faltavam, misturando-as com a minha juventude e as experiências daquele período. Também troquei essas ideias com Sandra Massera, autora do texto, uruguaia e co-diretora com quem trabalhei no processo da primeira montagem. Percebemos que, mesmo vivendo em países diferentes, estávamos ligadas pelo mesmo pensamento juvenil da época. Não quis separar os sentimentos e as experiências que vivi no Brasil da história que estou contando. As ditaduras no Brasil e no Uruguai, tiveram muitas coisas em comum e despertaram sentimentos parecidos.
Resenhando.com - Há algo de profundamente político em escolher uma atuação solo para falar de um trauma coletivo. Você sente que essa solidão em cena dialoga com a solidão das famílias que esperaram por respostas que nunca vieram?
Angela Figueiredo - Não sinto solidão em cena, represento a dor das famílias que esperam por respostas que nunca tiveram.
Resenhando.com - Depois de tantos anos transitando pela televisão, pelo cinema e pelo teatro, o que "1975" exige de você como atriz que nenhuma novela ousou exigir?
Angela Figueiredo - Este espetáculo me exige o domínio do todo, pois, além de co-dirigir e atuar, traduzi e adaptei o texto. Cuido de todos os detalhes. Já no cinema, na televisão e em espetáculos com equipes maiores, as funções são divididas: as equipes são grandes, muita gente para fazer muita coisa. Aqui, trabalho com uma equipe pequena e estou envolvida em todo o processo.
Resenhando.com - A peça revisita a ditadura uruguaia, mas o público brasileiro inevitavelmente faz suas próprias conexões. Em que momento você percebeu que "1975" deixou de ser “sobre o outro país” e passou a ser perigosamente próxima de nós?
Angela Figueiredo - Sempre pensei que a peça dialogava com a nossa história no Brasil, mas essa percepção se tornou ainda mais clara quando entendi que a violência e o trauma são os mesmos que vivemos aqui. A peça se passa no Uruguai, mas essa história poderia ser passada em nosso país também.
Resenhando.com - Existe o risco de transformar a dor histórica em produto cultural “bem-acabado”. Como você e Sandra Massera lidaram com o limite entre encenação, ética e memória viva?
Angela Figueiredo - Busquei uma abordagem baseada no respeito à memória da história dolorosa do passado. A encenação foi pensada para manter essa memória viva, como a personagem faz, usando obviamente a poesia do texto para chegar diretamente ao público sem a preocupação de suavizar o sofrimento. Independentemente da dor, a vida segue de alguma forma, e alguns momentos apenas aliviam a dúvida sem fim.
Resenhando.com - O espetáculo propõe uma escuta sensível, quase íntima. Em tempos de discursos ruidosos, polarizados e violentos, você acredita que o teatro ainda é um espaço de escuta, ou virou um lugar de resistência silenciosa?
Angela Figueiredo - Acredito que o teatro é um espaço de escuta, reflexão, resistência e poesia também. Não sei se silenciosa ou barulhenta; depende de como as pessoas recebem o espetáculo.
Resenhando.com - Ao longo da carreira, você interpretou personagens em universos muito distintos. O que permanece em você depois de cada sessão de "1975" que não ficava após um dia de gravação na televisão?
Angela Figueiredo - As personagens não vão comigo para casa. Eu as deixo no camarim, depois que tiro o figurino, independentemente do texto.
Resenhando.com - Há uma geração inteira que não viveu as ditaduras latino-americanas e outra que tenta relativizá-las. O que você espera que esses jovens levem consigo ao sair do teatro: incômodo, informação ou responsabilidade?
Angela Figueiredo - Espero que o espetáculo possa informar, sensibilizar ou despertar a curiosidade daqueles que não vivenciaram ou não sabem o que aconteceu nesse período. Mais do que isso, o texto também traz uma reflexão sobre perda, solidão e memória.
Resenhando.com - Em cena, você carrega memórias que não são suas, mas que são transmitidas por você o tempo todo. Existe um momento em 1975 em que a atriz desaparece e sobra apenas alguém tentando sustentar aquilo que a história tentou enterrar?
Angela Figueiredo - A peça é uma ficção construída a partir da realidade daquela época. As memórias não precisam ser minhas para que eu possa expressá-las e transmiti-las. Durante todo o espetáculo, estou ali como atriz, vivendo aquela história. Naquele momento, tudo é real.
Ficha técnica
Espetáculo "1975"
Texto: Sandra Massera
Direção: Sandra Massera e Angela Figueiredo
Elenco: Angela Figueiredo
Direção de vídeos e fotos: Nanda Cipola
Assistente de direção: Claudinei Brandão
Cenografia e figurinos: Kléber Montanheiro
Iluminação: Amarílis Irani e Maria Julia Rezende
Trilha sonora: Branco Mello e Sandra Massera
Programação visual: Vicka Suarez
Operações técnicas: Nanda Cipola, Maria Julia Rezende
Realização: Casa 5 Produções
Serviço
Espetáculo "1975"
Dias 24 e 25 de janeiro, às 14h30 e 17h00
Classificação: 12 anos
Duração: 60 minutos
Ingressos: https://bileto.sympla.com.br/event/114362/d/355042/s/2395274?
Sobre a B3
A B3, a bolsa do Brasil, tem o compromisso de apoiar a democratização do acesso à cultura, por meio de parcerias e patrocínios que facilitem o acesso da sociedade a esses espaços. Em 2023, a bolsa do Brasil apoiou 25 projetos, e possibilitou que mais de 95 mil pessoas acessassem os 7 museus patrocinados por meio do oferecimento também de dias de gratuidade. Dentre as instituições apoiadas estão o MASP, a Pinacoteca de São Paulo, o MIS, o Museu Judaico e MUB3, na capital paulista, o Instituto Inhotim, localizado em Minas Gerais, e o Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Além das gratuidades, a bolsa do Brasil patrocina ainda uma série de iniciativas culturais, como musicais, eventos e exposições.
Sobre a Aventura
Fundada em 2008, e liderada por Aniela Jordan, diretora artística e produção e geral, Luiz Calainho, diretor de marketing e negócios, e por Giulia Jordan, diretora geral de venues, a Aventura é referência na produção de espetáculos de altíssima qualidade, que tornou o mercado de teatro musical um dos principais segmentos da economia criativa no Brasil. A empresa se estabeleceu como uma grande aliada da multiplicidade artística, fundamental para o desenvolvimento social, econômico e cultural. A sua missão é transformar grandes ideias em realidade, criando fortes conexões entre marcas e projetos. São mais de 40 produções, de espetáculos inéditos e de versões da Broadway, como “Elis, a musical”, “A Noviça Rebelde”, “Sete”, “O Mágico de Oz”, “SamBRA”, “Chacrinha, o musical”, “Romeu & Julieta, ao som de Marisa Monte”, “Merlin e Arthur, um sonho de liberdade” e o infantil “Zaquim”. Em 2022, a produtora inovou com o primeiro musical em formato de série do país, o “Vozes Negras – A Força do Canto Feminino”, e com o musical “Seu Neyla”, apresentado em dois palcos com o uso da internet para criar uma experiência diferenciada no espectador, além de estrear uma parceria com a Disney - Pixar com o espetáculo “Pixar in Concert”. Com o objetivo de democratizar o acesso à cultura, criou a Cia Stone de Teatro, projeto de teatro itinerante no interior do Brasil e é a responsável pela produção da Cia de Ballet Dallal Achcar. Ao todo, foram mais de 3,8 mil apresentações e cerca de 4,5 milhões de espectadores, mais de 16 mil empregos diretos e indiretos gerados, números que não param de crescer.