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O
desejo reacionário: algumas conseqüências
Por:
Luiz
Horácio
Em novembro de 2004
O Livro dos Desmandamentos (2004) é um
romance político segundo advertência do autor. Se eu entendi bem, então para
o romance ser político, é preciso que o autor lhe outorgue o rótulo e os que
não trazem seus componentes descriminados podem ser tudo menos políticos.
Sei não. Mas também sei. Não gostei, gracinha desnecessária de autor e
editora. Ainda no departamento dos equívocos, convém incluir a capa de
péssimo gosto, confusa, beirando o amadorismo. Inadmissível numa editora de
grande porte. As besteirinhas, no entanto, não conseguem empanar, sequer um
pouquinho, o brilho e significado da obra.
O livro é na
verdade um oportuno e inteligente romance alegórico, tão político quanto
inúmeros outros que o são sem o devido anúncio. Cabe enfatizar que bem mais
importante que se intitular isso ou aquilo é ter qualidades que conduzam o
leitor à observação de um novo aspecto sob a superfície do texto. E isso o
autor consegue embora reste a suspeita de que devido à advertência na
abertura do livro, Carlos Trigueiro tenha a intenção de direcionar o olhar
do leitor. Não é nada cansativo voltar a Nietzsche ; "a verdade não existe,
também não há fatos, somente interpretações que virão a ser mais ou menos
poderosas". Então é recomendável ao leitor esquecer a nefasta admoestação
inaugural e extrair suas próprias conclusões do Livro dos Desmandamentos. Do
contrário chegará ao ponto final exausto de tanto testemunhar metáfora
empurrando metáfora.
Vivemos tempos dos mais óbvios e estarrecedores, um povo enganado que se
permitiu ser enganado e atualmente presta tributo aos enganadores. As
aberrações políticas são encaradas como excentricidades, a opressão é vista
como cuidado com os cofres públicos e o descaso com o povo é só mais um
sintoma a acusar que, para disfarçar, os males neoliberais embaçaram um país
com placebo.
Se no passado vestimos a dita esquerda com os trajes da esperança, hoje em
dia só nos resta a notícia de que a verdadeira esquerda foi avistada em
lugar distante daqui, solitária sob as vestes da simplicidade, triste mas
ainda disposta, rumo a outro hemisfério. Diante da falta de uma esquerda
responsável, nos habituamos a entregar o país a canalhas, do mais tenebroso
rincão ao Alvorada, campeia a corrupção e a vulgaridade.E se olharmos para
trás, nossa história não permite imaginar um futuro muito diferente, nossa
realidade patética não está tão distante da ficção.
Uma das personagens deste O Livro dos Desmandamentos é o diabólico Coronel
Justo Sacrossanto, um representante das oligarquias nordestinas,proprietário
de terras e influente na política local. Apresenta um defeito congênito, tem
dois braços direitos. É exatamente o coronel Justo que abrirá as portas da
fantasia para a entrada da realidade sem que seja necessário desrespeitar a
fronteira que a isola da ficção. Uma figura desse quilate e sem braço
esquerdo, atento leitor, não permite uma relação óbvia? Alguém aí lembrou da
súcia que nos desgoverna? Desculpe...foi sem querer.
Ao combinar ironia com
o desmascaramento de uma realidade nociva, Carlos Trigueiro lançou seu olhar
meticuloso à nossa história recente, e os fatos podem ser conferidos sem a
necessidade de uma viagem ao passado exclusivo dos livros e bancos
escolares. Trata da história que sobrevive, da história sem ponto final. A
trama de Desmandamentos está situada num esquecido arraial nordestino livre
de autoridades, sem escolas, sem bancos, onde dinheiro vivo é coisa de ouvir
falar e os serviços sexuais fazem as vezes de moeda corrente.
O leitor, porém, poderá comprovar que canalhice que se preza não escolhe
cenário e a semelhança de personagens com pessoas reais não é mera
coincidência. Os momentos de insuspeito realismo mágico na narrativa de
Carlos Trigueiro não são gratuitos tampouco deslocados da realidade
retratada e se em alguns momentos nem chamam a atenção a culpa não é do
autor, que foi preciso, mas de uma realidade onde a corrupção se perpetua.
Todos os Santos Silvério (assim foi batizado o vigésimo primeiro filho de
José e Maria), olhos abertos, permitiu notarem que um era verde e o outro
azul. Não precisou muito para ser chamado de Santinho. A crendice local logo
o colocou no panteão dos milagreiros e o milagre inaugural de Todos os
Santos aconteceu quando desenhou sorrisos nos rostos paralisados dos
habitantes de Quebra-Vento. Mas Santinho não era "só" milagreiro não, em
1964 do alto dos seus sete anos já havia decorado todos os versículos da
Bíblia em inglês e português, previu a instalação da ditadura militar e o
caos político/social que resultaria desse estado de coisas.
E como tudo que é diferente logo desperta ciúme, e a fama de Santinho corria
rápido, inevitavelmente os jornais o alcançaram e a seguir a notícia deu com
os costados nos temíveis braços direitos de Justo Sacrossanto que logo
imaginou que as nada convencionais faculdades de Santinho poderiam lhe
trazer problemas. Ordenou que o seu mais fiel capanga, justamente um dos
irmãos gêmeos de Santinho, cortasse a língua do garoto milagreiro.
E como tudo que
é diferente logo desperta ciúme, e a fama de Santinho corria rápido,
inevitavelmente os jornais o alcançaram e a seguir a notícia deu com os
costados nos temíveis braços direitos de Justo Sacrossanto que logo imaginou
que as nada convencionais faculdades de Santinho poderiam lhe trazer
problemas. Ordenou que o seu mais fiel capanga, justamente um dos irmãos
gêmeos de Santinho, cortasse a língua do garoto milagreiro.
Língua cortada, Santinho permaneceu mudo durante vinte e um anos, mas
avisou: "Na virada do século XXI terminará o feitiço das 346 caveiras de
burro enterradas pelos índios janduís em 1654, a mando dos invasores
holandeses! Também vejo que nenhum presidente do período autoritário
assistirá à virada do milênio. Ficarei mudo durante a ditadura militar, até
1985. Ao completar vinte e oito anos, voltarei a falar, e minha rabeca soará
de novo, mesmo sem as cordas que a ditadura vai arrancar."
Santinho foi ainda mais longe e , como de costume, acertou na mosca ao
responder a um correspondente francês:
Correspondente francês: "Sendo vidente, o senhor não vê chance de as
esquerdas chegarem ao Poder no século XXI?"
Respondeu Santinho: "Pode parecer incrível, haverá chance sim, mas as
esquerdas terão que se endireitar e, uma vez no Poder, vão tratar de se
conservar: quem viver, verá."
Diante de uma narrativa impregnada de grotesca melancolia (a culpa não é do
autor e sim da realidade que invade a ficção) , o leitor apressado pode
correr o risco de acreditar estar lendo um jornal . A diferença é que as
sensações permanecem além do tempo da leitura.
O Livro dos Desmandamentos- (Profecias de um excluído) tem no seu maior
mérito também seu único e grande problema,a precisão com que descreve um
país de cócoras, um povo anestesiado, (a televisão determina a aparência, a
indumentária, o cardápio, o vocabulário, o desejo...) e a aproximação da
ficção com essa triste realidade me faz voltar a Nietszche que alertava para
o perigo de não levar a sério as coisas reais e de como se formam as
personalidades fracas.
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Livro:
O Livro dos Desmandamentos |
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Autor:
Carlos Trigueiro |
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176 páginas |
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Editora: Bertrand Brasil |
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