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O Barroco e o Modernismo em estudo
Por: Mary Ellen Farias dos Santos

Em novembro de 2009



Análise da poesia barroca de Gregório de Matos e do poema modernista de Mário de Andrade.

 

Ardor em firme coração nascido!
Pranto por belos olhos derramado!
Incêndio em mares de água disfarçado!
Rio de neve em fogo convertido!

Tu, que em ímpeto abrasas escondido,
Tu, que em um rosto corres desatado,
Quando fogo em cristais aprisionado,
Quando cristal em chamas derretido.

Se és fogo como passas brandamente?
Se és neve, como queimas com porfia?
Mas ai, que Amor em ti prudente.

Pois para temperar a tirania,
Como quis que aqui fosse a neve ardente,
Permitiu, parecesse a chama fria.
Gregório de Matos















 
Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.

O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade...

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade...

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.
  Mário de Andrade



O termo Barroco denomina genericamente todas as manifestações artísticas dos anos 1600 e início dos anos 1700, incluindo: música, pintura, escultura e arquitetura, sendo que seu maior representante brasileiro foi o poeta Gregório de Matos. Com grande distância de período, o Modernismo no Brasil, amplo movimento cultural que repercutiu fortemente sobre a cena artística e a sociedade brasileira, ocorreu na primeira metade do século XX, enfatizando o campo da literatura e das artes plásticas, tendo como maior representante o poeta Mário de Andrade.

Embora o Barroco seja considerado como o primeiro estilo de época da literatura brasileira e Gregório de Matos o primeiro poeta efetivamente brasileiro, sabe-se que Pe. Antônio Vieira, português, também é um dos principais autores, sendo que em Portugal o Barroco (ou Seiscentismo) teve início em 1580. Sendo assim, Gregório de Matos e Pe. Antônio Vieira tiveram suas vidas divididas entre Portugal e Brasil.

As principais características do Barroco são o culto exagerado da forma, por esse motivo, utiliza-se de figuras de linguagem (metáfora, antítese e hipérbole) e o conflito entre o terreno e o celestial, pois o homem desta época era dicotômico e buscava os contrastes. A literatura Barroca possui como marcos estilístico o exagero, a dualidade e a religiosidade.

Na poesia de Gregório de Matos, em estudo, há o jogo de palavras (cultismo) e de ideias (conceptismo), os quais desenham as contradições do amor utilizando-se da sonoridade das rimas nas terminações de cada verso, como por exemplo, na primeira estrofe: “Ardor em firme coração nascido; / Pranto por belos olhos derramado; / Incêndio em bares de água disfarçado; / Rio de neve em fogo convertido;”.

Nesta primeira estrofe, a poesia lírica amorosa de Gregório de Matos, já revela o amor do eu - poético por sua amada. Nos dois últimos versos os termos contraditórios retratam o dualismo do sentimento amor: “Incêndio em mares de água disfarçado / Rio de neve em fogo convertido”.

Na segunda estrofe o eu - poético se refere diretamente à amada, iniciando os dois primeiros versos com o pronome pessoal, Tu. No entanto, utiliza-se novamente do jogo de palavras para falar sobre o sentimento contraditório que tem pela amada. “Tu, que em ímpeto abrasas escondido; / Tu, que em um rosto corres desatado;”.

Neste jogo de palavras a poesia ganha um ritmo de forma poética, o que a distancia de um poema. Ao dispor as palavras na poesia, o representante brasileiro do Barroco faz um jogo lúdico com os contrastes em versos, como por exemplo, “Incêndio em mares de água disfarçado; / Rio de neve em fogo convertido”, “Se és fogo, como passas brandamente, / Se és neve, como queimas com porfia?”, ou ainda, quando utiliza termos contrários, como, por exemplo, “neve ardente” e “chama fria”.

Ao expor a angústia, o eu - lírico, revela todo o afeto pela amada, e, chega a derramar lágrimas por ela. O sofrimento deste pelo ser amado é confirmado por meio dos sinais de exclamação, ou seja, ele demonstra o conflito deste sentimento. No nono e décimo versos que: “Se és fogo, como passas brandamente? / Se és neve, como queimas com porfia?”. Embora no verso seguinte, tal sentimento é novamente enaltecido quando a palavra Amor é escrita em letra maiúscula: “Mas ai, que Amor em ti prudente”.

Na última estrofe, o eu – lírico volta à razão, pois finaliza o verso que o precede com a palavra prudente!, e, na sequência diz: “Pois para temperar a tirania, / Como quis que aqui fosse a neve ardente, / Permitiu, parecesse a chama fria.” No entanto, ainda usa a ambiguidade e o dualismo ao retratar a linha tênue entre a realidade e o jogo amoroso.

No Brasil, o Modernismo (ou movimento moderno), teve seu marco inicial a partir da Semana de Arte Moderna, realizada em São Paulo, em 1922. Contudo, nem todos os participantes desse evento eram modernistas, como por exemplo, Graça Aranha, o orador, era pré-modernista.

Inicialmente, o Modernismo não era dominante, mas Mário de Andrade, grande intelectual, de vanguarda, esteve à frente da Semana de Arte Moderna, do Manifesto Antropofágico, o qual, nos anos trinta, buscava uma identidade cultural nacional para romper com a tradição de uma nação colonizada.

Escrito no final da vida de Mário de Andrade, o trecho sem título da coletânea Lira Paulistana, publicada postumamente, é um testamento em forma de poema. Neste texto poético há liberdade de estilo, a aproximação com a linguagem falada e a demonstração de um grande amor e fidelidade (mesmo após a morte) pela terra paulistana. “Quando eu morrer quero ficar, / Não contem aos meus inimigos, / Sepultado em minha cidade, / Saudade”.

Fiel à sua cidade, o poeta quer que seu corpo permaneça eternamente nela. Para que tal desejo seja realizado ele determina onde e como cada parte de seu corpo deve ser sepultada , como por exemplo, os pés devem se enterrados na rua Aurora, o sexo é preciso ser deixado no Paiçandu, os ouvidos devem ser escondidos nos Telégrafos e Correios, entre outros.

O poeta enaltece a cidade de São Paulo (valoriza as raízes culturais do Brasil) ao “espalhar” o seu corpo em lugares “estratégicos”, como por exemplo, “Escondam no Correio o ouvido / Direito, o esquerdo nos Telégrafos. / Quero saber da vida alheia, / Sereia.”

Ao planejar o sepultamento o eu – lírico de Mário de Andrade, diz no quinto verso: “Meus pés enterrem na rua Aurora”, e refere-se ao local em que morou, durante quase toda a vida, no número 320, Rua Aurora, onde seus pais, Carlos Augusto de Moraes Andrade e Maria Luísa Leite Moraes Andrade também viveram.
No verso seguinte ao “deixar o sexo” no Paiçandu, o eu – lírico presta contas de seus pecados carnais, pois ao desejar o sepultamento de seu sexo no Largo do Paiçandu (local em que em seu centro, está localizada a Igreja Nossa Senhora do Rosário, ou Igreja N. Srª do Rosário dos Pobres, construída em 1906), este alcançaria o perdão eterno. É o encontro do pecado e do sagrado.

Ao desejar que enterrem a cabeça na Lopes Chaves, o eu – lírico refere-se à rua em que o poeta Mário de Andrade, morava em São Paulo. Segundo Roberto Pompeu de Toledo, no texto "O que há por trás dos nomes das ruas", publicado na revista Veja, em 06/08/1997 (http://veja.abril.com.br/060897/p_142.html), atualmente, cruzando a Lopes Chaves, nas proximidades da sombria via elevada conhecida como "Minhocão", existe uma Rua Mário de Andrade.

Na terceira estrofe é expresso o desejo de onde deve ser sepultado o seu coração paulistano: “No Pátio do Colégio afundem / O meu coração paulistano: / Um coração vivo e um defunto / Bem juntos”. O coração, responsável pela movimentação do sangue e das emoções nas aveias do corpo, “deve ser depositado” junto ao marco inicial no nascimento da cidade de São Paulo, ou seja, o coração dele serve de “alicerce” ao coração da cidade, pois ele deve ser “afundado” no Pátio do Colégio.

Na quarta estrofe, não dispensa a ironia: “Escondam no Correio o ouvido / Direito, o esquerdo nos Telégrafos. Quero saber da vida alheia, / Sereia”. Para saber das “novidades” ele deseja que seus ouvidos fiquem separados escondidos (em tom de mexerico), um nos Correios (aonde chegam as cartas com novas informações de toda a parte) e outro nos Telégrafos (aparelho que efetua a transmissão ou a recepção de mensagens a distância, por meio de sinais), ou seja, após a morte, os seus ouvidos continuariam atentos nos meios de comunicação da época, e, assim, poderia saber de todas as notícias.

Na quinta estrofe pede para guardar seu nariz e sua língua em outros dois pontos estratégicos. O primeiro nos rosais, enquanto que a língua deve ficar no alto do Ipiranga, para fazer ouvir o grito de independência da nação brasileira. “O nariz guardem nos rosais, / A língua no alto do Ipiranga / Para cantar a liberdade. / Saudade...”.

No verso, “para cantar a liberdade”, o eu – lírico faz uma alusão ao grito de “Independência ou Morte", grito dado por vários líderes de países que indica que seu país está a postos para lutar contra quem o coloniza. No Brasil do Brasil, D. Pedro.

O bairro do Ipiranga representa o espaço físico em que foi dada a independência do Brasil. Um dos bairros mais antigos da capital, conta com importantes pontos históricos da cidade: o Museu do Ipiranga, o Parque do Ipiranga, um monumento que simboliza a independência do Brasil (proclamada onde hoje está o parque), o "Grito do Ipiranga".

Na sexta estrofe ao sepultar os olhos no Jaraguá para assistir o que há de vir o eu – lírico se refere ao monte mais alto perto de São Paulo, o Pico do Jaraguá, local de onde poderá enxergar o horizonte e observar o futuro da cidade.

Na estrofe seguinte ao desejar enterrar o joelho na Universidade, espaço voltado para reflexão intelectual, o eu – lírico demonstra toda a sua autoridade e poder, enquanto as mãos, símbolo da atividade, do poder, da força e da proteção, ele as deixa livres e diz: “As mãos atirem por aí, / Que desvivam como viveram”. E, nos últimos versos, o eu - lírico quer que atirem as tripas para o Diabo porque o espírito será de Deus, e despede-se, finalmente, com um Adeus.

Neste testamento poético, o eu – lírico deseja ser espalhado por toda São Paulo, cada resto mortal em locais específicos. Nessa divisão corporal (vários pedaços), o eu – lírico pode ser capaz de renascer, após a morte ao completar-se junto a sua terra paulistana. Tal união transcende os limites do corpo e da cidade como se pudesse voltar a pulsar, eternamente, em união com a vida.

Considerando que o Modernismo é a retomada do Barroco e que ambos possuem a capacidade de transformação, ou seja, têm a capacidade da adaptação, não da cópia, pode-se afirmar que os dois movimentos, distintos, libertaram-se das regras. Desta forma, ambos os textos empregam a língua com liberdade e beleza, utilizando-se, muitas vezes, do sentido metafórico das palavras.

 
 
 
 
 
 

 

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